publicado dia 16/11/2017

A situação dos jovens na fronteiras do México com os Estados Unidos

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José Manuel Valenzuela Arce já publicou 25 livros ao longo de sua carreira acadêmica. Suas obras foram traduzidas para o espanhol, inglês, português, italiano, catalão, alemão e francês e têm sido de grande importância para a compreensão dos processos socioculturais, urbanos e os movimentos culturais juvenis que definem a fronteira México-Estados Unidos e a América Latina.

Valenzuela foi um dos primeiros acadêmicos a utilizar o conceito de juvenicídio, no final dos anos 80, para tratar da violência que acomete milhares de jovens na América Latina, além de trazer um novo olhar para a população da cidade fronteiriça de Tijuana (México) e a situação dos imigrantes nos Estados Unidos.

Após uma visita ao Brasil para participar do Seminário Internacional Juventudes e Vulnerabilidades, promovido pelo Instituto Saúde na Universidade de São Paulo (USP), o mexicano concedeu uma entrevista à Rede Peteca – Chega de Trabalho Infantil e falou sobre a precarização de vidas juvenis na América Latina.

Confira os principais trechos:

Conceito de Juvenicídio

Ao final dos anos 80 e início da década de 90, o assassinato de jovens e a violência começaram a aumentar de maneira impune, apresentando-se como um triste dado da América Latina. Foi então que comecei a trabalhar esse conceito como uma questão ética, política e acadêmica para que o fenômeno se tornasse visível e trouxesse possibilidade ações de confronto e resistência.”

 

Precarização das vidas jovens

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José Manuel Valenzuela Arce é Doutor em Ciências Sociais com especialização em Sociologia pelo Colégio de México. É professor e pesquisador do Departamento de Estudos Culturais da North Border College e fundador do Colégio da Fronteira Norte (1982) em Tijuana e do Departamento de Estudos Culturais (1990-1993 e 1999-2003).

A precarização de vidas começa principalmente a partir de construção de distintas identidades desacreditadas que geram vulnerabilidade.

O que observamos de maneira muito clara é que não se mata apenas pelo fato de serem jovens.

Precisamos olhar para a situação sob a perspectiva social, de gênero e de raça, pois todos esses fatores combinados aumentam a precarização e condições de morte da juventude.

Essas distintas formas de precarização culminaram em uma limpeza social em toda América Central e América Latina. E nos Estados Unidos temos algo similar ocorrendo com os afro-americanos e latinos, em nome de uma suposta estratégia política de combate ao consumo de drogas.”

 

Estatísticas perversas

 Se compararmos uma mesma situação de criminalidade envolvendo um grupo de brancos, de latinos e de afrodescendentes nos EUA, veremos que os latinos terão três vezes mais possibilidades de irem presos e os afro-americanos, seis vezes mais. O aumento das estatísticas também ocorre quando o assunto é a chance de ambos os grupos serem mortos pela polícia. Ou seja, as condições de vulnerabilidade sob as minorias têm efeitos perversos que definem o cenário de vida e morte nos EUA e na América Latina e afetam principalmente os jovens”.

 

Fronteiras e o Impacto da imigração

 É importante reconhecer que os jovens atuais nasceram em um cenário de crise, uma vez que o tema fronteiriço sempre foi uma questão estratégica para o México e para os EUA. Desde os anos 90, podemos observar uma nova condição da imigração que é incorporada como um elemento político eleitoral estadunidense.

 

O que temos durante os últimos anos é a articulação de vários processos como a desaceleração da economia e o desemprego, o aumento de grupos racistas de supremacia branca e de políticas que criminalizam os que tentam chegar à fronteira.

 

Tudo isso, ligado ao crescimento do narcotráfico na América Latina e o suposto combate do governo ao crime organizado, resultou em mais mortes para os imigrantes em geral e em especial os jovens.”

Preconceitos e novas perspectivas

Hoje, vemos o discurso do presidente Donald Trump, apoiado por grupos supremacistas brancos, que trata a presença latina como uma ameaça, mas o fato é que esse posicionamento não é novo e vem desde a década de 80. Minha tese de doutorado já trazia uma definição que se chamava “A cor das sombras” porque assim eram chamados os imigrantes nos Estados Unidos por alguns grupos. Dizia-se que eles tirariam empregos da população, gerariam doenças e aumentariam a violência e a criminalidade.

 

O Colégio da Fronteira Norte surgiu em 1982 com a perspectiva de desmontar os estereótipos construídos ao longo de anos pelos EUA, trazendo informações e estudos acadêmicos sobre temas como racismo, identidade, conflitos fronteiriços, entre outros assuntos. Esse trabalho, aliado ao aumento dos movimentos juvenis em Tijuana e à perda da exclusividade de informação vinda dos EUA, trouxe uma mudança de visão e perspectivas.”

 

Criminalização e Redução da Maioridade Penal

Esse é um dos motivos pelo qual estou na academia. Em 1980 foi anunciada a realização de um congresso anti cholos* defendendo a ideia de reduzir a idade penal, com a justificativa de que eles eram os causadores da violência. Foi então que comecei a trabalhar com os cholos nos bairros para combater tal medida.
Para mim a redução da maioridade é uma questão brutal, que além de não resolver nada, aumenta a vulnerabilidade dos jovens. É uma estratégia equivocada de muitos países latino-americanos que estigmatiza jovens pobres, negros e índios frente à incapacidade de outras estratégias políticas de combate ao crime.

No México, falamos de mais de 100 mil crianças em condições extremas de vulnerabilidade e de 30 mil que participam do narcotráfico desde o final dos anos 80.

O que temos é uma lógica de familiarização com a violência e a morte de crianças e jovens dentro das periferias e nos âmbitos urbanos dos cenários latino-americanos.

Sempre insisti que crianças não nascem criminosas, mas são as condições de precarização e de violência institucionalizada que possibilitam o acesso ao crime organizado. Reduzimos para 16 anos e depois? Vamos para 14, 10 anos? É um absurdo.

 

*Termo em espanhol relacionado a grupos de mexicanos que adotaram elementos visuais e culturais de membros de gangues. Utilizado atualmente como uma forma de identidade e subcultura de grupos hispânicos nos EUA.

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