publicado dia 29/09/2017

“Precisamos explorar a fundo a Lei da Aprendizagem”, diz Mario Volpi, do UNICEF

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João tem 18 anos e não terminou os estudos. Parou de ir à escola no quinto ano e, desmotivado, não quis voltar às aulas com os colegas mais novos. “Não perde seu tempo, não. Saia da escola e vá trabalhar”, ele ouvia, corriqueiramente, de adultos.

O trabalho infantil, bem como a falta de incentivo à Lei de Aprendizagem, é uma das principais causas da evasão escolar. Segundo Mario Volpi, coordenador do Programa Cidadania dos Adolescentes do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) no Brasil, a chamada “norma social”, expressão atrelada aos mitos que cercam o trabalho precoce, surge como grande obstáculo para a garantia dos direitos da criança.

“A norma social não tem a ver com religião ou lei; a norma social é gerada dentro da sociedade a partir de expectativas. Um exemplo é a gorjeta: se você não der, é um pão duro, um cara chato. A norma social é a expectativa de um comportamento seu”, disse Volpi na quarta-feira, 26 de setembro, durante a Conferência Ethos 360º.

Mario Volpi, segundo da esquerda para a direita, durante painel na conferência. Crédito: Rede Peteca

Ao lado de Ricardo Henriques, superintendente executivo do Instituto Unibanco, e Neca Setubal, presidente do conselho da Fundação Tide Setubal e do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE), o especialista do UNICEF participou da mesa “Educação e aprendizagem: o que as empresas têm com isso?”.

“Mais de 90% das famílias acreditam na educação como forma de mobilidade social. Contudo, existe uma norma entre nós que se reproduz na rede de exclusão. Dizem: ‘mas o menino com 16 anos vai voltar para estudar na quinta série?’”, afirmou Volpi. Uma pesquisa realizada pelo UNICEF aponta que a maioria dos jovens de 15 a 17 anos que abandonaram a escola só concordariam em retomar os estudos se pudessem conciliá-los ao trabalho. Por esse motivo, defende Volpi, é necessário fortalecer a Lei da Aprendizagem.

Coordenador do programa de cidadania da Unicef, Mario Volpi, durante lançamento de relatório com os principais avanços e desafios relacionados à infância e adolescência nos 25 anos do ECA (Antonio Cruz/Agência Brasil)

Coordenador do programa de cidadania da Unicef, Mario Volpi defende a aprendizagem. Crédito: Antonio Cruz/Agência Brasil

De acordo com o especialista do UNICEF, as empresas precisam, com urgência, combater a baixa escolaridade por meio de oportunidades de emprego nas quais o jovem possa aumentar o seu repertório.

Tirar xérox cumpre a lei, mas não deve ser só isso. Deve haver aprendizado, sempre”, acredita.

A Lei de Aprendizagem não é criação de posto de trabalho, é criação de um posto de aprendizagem no próprio emprego, que não é tarefismo. Precisamos explorar a fundo a Lei da Aprendizagem”, acrescenta.

“Durante a pesquisa, ouvimos depoimentos emocionados de adolescentes que foram excluídos. O contrário da exclusão é o pertencimento. A aprendizagem tem um papel muito nobre de ajudar na luta contra a exclusão. Vamos ressignificar essa ideia de que um jovem pobre não deve mais estudar e deve só trabalhar. Empresários, contratem aprendizes!”

A visão sobre a adolescência

“Negamos a adolescência por muito tempo. Temos essa visão mágica do desenvolvimento humano, de que os três primeiros anos de vida são decisivos. Mas eles só vão se consolidar se na segunda década da vida houver investimento e cuidado”, ressalta Volpi.

As drogas, a exclusão escolar e outras vulnerabilidades não estão apenas no contexto da adolescência; elas fazem parte da própria sociedade. “A adolescência não está pronta e é um ciclo fundamental. São necessários novos investimentos e reflexão sobre esse novo sujeito de direitos”, opina.

Leia mais: “Perdemos as crianças na segunda década de vida”

O real papel das empresas

Um dos problemas educacionais mais graves do país é o analfabetismo funcional: apenas 8% dos brasileiros em idade de trabalho conseguem se expressar por meio de letras e números. A esse cenário, soma-se outra estatística preocupante: apenas 65% dos alunos terminam o Ensino Médio e, dentre eles, apenas sete seguem para a universidade.

“Temos números perturbadores para o desenvolvimento dos aprendizes”, diz o empresário Ricardo Henriques, lamentando que os jovens, em sua maioria, chegam pouco capacitados ao mercado de trabalho e, consequentemente, não são devidamente acolhidos pelas empresas. “Poucas delas têm o orientador profissional ou um pedagogo entre seus funcionários. Essa função é chave por ser a ponte de acolhimento para os jovens, auxiliando-os também no aumento de repertório cultural.”

Invisibilidade política

Neca Setubal vê a Lei da Aprendizagem como um suporte fundamental para o desenvolvimento da educação: “Para além dos lucros, normas e padrões, a sociedade demanda das empresas papel amplo nas relações de cultura, educação e meio ambiente”.

De acordo com Neca, ainda existe um abismo entre a escola e as empresas. “Os jovens querem ser ouvidos, ter participação, querem que suas escolas sejam ligadas aos problemas da sociedade e também querem entender como se qualificar para o mercado de trabalho. E querem trabalhar em uma empresa que vá além do produto, que tenha também uma causa”, observa.

Favorável ao trabalho adolescente protegido, a especialista ressalta ser urgente que os jovens recebam as mesmas oportunidades.

É errado se as empresas buscarem só os melhores talentos das melhores universidades. Temos de levar em conta as temáticas de gênero e raça e pensar, junto com a sociedade, o papel para o enfrentamento de questões complexas que têm a ver com educação.”

A Rede Peteca – Chega de Trabalho Infantil participa da Rede de Empresas pela Aprendizagem e Erradicação do Trabalho Infantil, iniciativa do Instituto Ethos lançada no fim de 2016. Acompanhe as atualizações em nosso site.

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