publicado dia 04/04/2017

Um dos jovens mais influentes do Brasil conta como transformou sua comunidade

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“Filho, historicamente nunca fizeram nada pelas pessoas que moram nesses espaços… Então, se você quiser uma nova comunidade, você precisa construí-la.”

Em um barraco de chão de terra batida na periferia de Guarulhos (SP), um jovem sonhava em mudar o mundo. Em meio a conflitos diários, cenas de violência e criminalidade, Eduardo Lyra acreditava no poder das ações e principalmente das palavras da mãe, dona Maria Gorete, acima reproduzidas.

Por falta de oportunidades, sem grandes perspectivas de futuro e com o pai na prisão, ela se tornou o grande alicerce de Eduardo, despertando no menino que se mudou aos 7 anos para Poá (extremo leste da região metropolitana de São Paulo) o senso de garantia de direitos, de responsabilidade e consciência cidadã.

A voz da mãe, que dizia: “filho, não importa de onde você vem, mas para onde você vai”, ainda ecoava em sua mente quando ele decidiu seguir nos estudos, se tornar jornalista e, posteriormente, um empreendedor social. “O que me move é a chance de causar uma transformação social, ocupar espaços que são historicamente abandonados pelo Estado e pelo poder público. O que me move é construir ferramentas sociais que possam de fato virar uma transformação na vida das pessoas que sempre foram excluídas e ficaram à margem da sociedade.”

Os frutos dessa convicção são perceptíveis na fala de Eduardo e na história traçada até aqui, mostrando que as escolhas resultaram em um caminho de sucesso e inspiração para centenas de jovens. Aos 29 anos, já foram dois livros publicados, um prêmio de Jovem Empreendedor do ano pelo LIDE, a escolha do Fórum Econômico Mundial como um dos 15 jovens brasileiros que podem mudar o mundo, e a aparição na lista da revista Forbes Brasil como um dos 30 jovens mais influentes do País.

Mesmo com todas as conquistas, o grande orgulho de Eduardo é o Instituto Gerando Falcões, que emprega 40 moradores da própria comunidade e atende atualmente cerca de 1,5 mil famílias, por meio da atuação em três frentes: esporte, cultura e renda. Eduardo Lyra entende que as atividades no contraturno escolar são poderosas armas para manter crianças e adolescentes longe da vulnerabilidade social e da situação de trabalho infantil. A ONG ainda oferece oportunidades a adultos egressos do sistema prisional com recolocação ao mercado de trabalho.

Rede Peteca | Chega de Trabalho infantil passou um dia ao lado do empreendedor social em Poá. Entre pausas para interagir com as crianças do projeto e receber visitas de apoiadores, como o desenhista Mauricio de Sousa e o presidente da Accenture no Brasil, Leonardo Framil, Eduardo conversou com o portal. Confira a entrevista.

O início

“O começo foi muito difícil porque quando criei o Gerando Falcões, ainda morava numa casa simples, em um lugar repleto de pobreza e vulnerabilidade social. Mas, há quatro anos, tive a sorte de me deparar com uma mulher chamada Patrícia Villela Marino, que decidiu fazer um investimento semente no Instituto, algo em torno de R$ 100 mil. E esse investimento alavancou o projeto, conseguimos mobilizar outras famílias e empresas parceiras. Hoje posso dizer que somos o principal negócio da comunidade, injetando R$ 1,5 milhão por ano na economia da região.”

"Se eu escapei contra todas as estatísticas porque não fazer outras pessoas escaparem também?” (Crédito: Divulgação)

“Se eu escapei contra todas as estatísticas, porque não fazer outras pessoas escaparem também?” (Crédito: Divulgação)

Atuação do Instituto

“Nosso foco é a educação para cultura, a educação para o esporte e a educação para capacitação profissional. A gente tem um espaço muito bacana aqui na comunidade que é chamada de ‘Disney da Periferia’ porque tem um mundo de coisas acontecendo para crianças e jovens. Aulas de pintura, coral, boxe, tênis, futsal, percussão, teatro, atendimento psicossocial, tratamento dentário, oftalmológico. Também oferecemos aos jovens aulas de logística, programação, animação em 3D e cursos de sommelier para que no futuro elas tenham perspectivas profissionais, renda própria, além de acesso à cultura, esportes e lazer.”

Direito negados e perspectivas

“Nossas crianças vivem em espaços insalubres, do lado de córregos e lixos. Elas não têm o mínimo de acesso à cidadania porque esses direitos básicos de cidadãos lhes foram negados. Sem contar que as pessoas da periferia, em geral, são condicionadas a enxergar apenas um palmo à frente do nariz, sem possibilidade de vislumbrar muitos caminhos. Eu também nasci sem essa perspectiva, ferrado de grana, mas aí você conhece pessoas que te provocam a dar mais um passo, a expandir sua visão e você acaba se desafiando a pensar diferente e seguir por outros caminhos. Se eu escapei contra todas as estatísticas, porque não fazer outras pessoas escaparem também?

Equipe do Instituto Gerando Falcões (Crédito: Divulgação)

Equipe da ONG Gerando Falcões (Crédito: Divulgação)

O poder do empreendedorismo social

“O poder público não está aqui oferecendo escola, creche, saneamento básico e nunca fomos pauta para a sociedade, por isso nossa comunidade é auto gerenciada. E olha só o mundo de coisas que fomos capazes de criar a partir do empreendedorismo… Com as ferramentas certas, a gente conseguiu solucionar problemas e pensar em ações de impacto social, colocando as pessoas dentro do sonho e oferecendo oportunidades que elas nunca tiveram.”

Inspiração e responsabilidade

“Hoje eu sou chamado para dar palestras nas empresas e conversar com executivos em espaços que tradicionalmente não seria recebido. E eu não vou apenas para inspirá-los, eu vou para levar a bandeira da periferia. Eu já fui alguém que não transitava, mas meu impacto era muito menor. Então, percebi que liderar também era circular por diferentes lugares, derrubando muros e construindo pontes. Hoje, eu sei que minha história não é exclusiva, ela pode ser reescrita e replicada em outros locais, inspirando líderes de outras comunidades do Brasil.”

No ringue, a luta pelos direitos da infância e da adolescência