publicado dia 24/10/2016

No ringue, a luta pelos direitos da infância e da adolescência

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Cidade Nova, Salvador, Bahia. Este é o endereço da Academia Champion, onde funciona o projeto Campeões da Vida. Desde 1990, a iniciativa realiza sonhos de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social de 12 a 18 anos, que depositam no boxe a esperança de construírem uma história vitoriosa.

Conhecida como “fábrica de talentos”, foi dali que saíram lutadores como Popó, Minotouro, Adriana Araújo e o mais recente medalhista de ouro nas Olimpíadas do Rio de Janeiro, o boxeador Robson Conceição. Mas os nomes que hoje se destacam no cenário nacional ficam até pequenos perto da dimensão de um projeto pelo qual já passaram 6 mil crianças.

O responsável pelo trabalho que mudou tantas vidas é o baiano Luiz Dórea, técnico consagrado da seleção brasileira olímpica de boxe que não abandona suas raízes e tem total consciência do seu papel na formação desses meninos e meninas.

No centro da imagem, com a mão direita levantada, o técnico baiano Luiz Dórea. À sua esquerda, o boxeador Robson Conceição. (Crédito: Arquivo pessoal)

No centro da imagem, com a mão direita levantada, o técnico baiano Luiz Dórea. À sua esquerda, o boxeador Robson Conceição. (Crédito: Arquivo pessoal)

Resgate da infância

O passado promissor do ex-boxeador foi interrompido contra sua vontade após a morte de seu técnico e empresário. A falta de oportunidades e apoio para continuar a carreira de lutador não o impediu de continuar fazendo o que mais amava. Ele não contava, porém, que a decisão de abrir a academia no bairro pudesse resgatar a infância de tantas crianças.

“Decidi abrir a academia para continuar a treinar, na expectativa de surgirem novas lutas, mas as crianças começaram a aparecer e passei a me dedicar mais a elas do que a mim”, diz.

Hoje, mais do que treinador, se considera um pouco pai, professor e até psicólogo. “Pais já vieram me procurar chorando porque o filho estava envolvido com drogas ou outros problemas e nós conseguimos ajudar com muito trabalho, conversa e dedicação. Essa é uma das forças que o esporte tem.”

No projeto Campeões da Vida, esporte e educação caminham juntos e o boxe não pode servir de justificativa para falta de estudos. Pelo contrário: a comprovação de frequência escolar é a única condição exigida para que os alunos possam participar e Dórea faz questão de cobrar o mesmo empenho aplicado nos treinos em sala de aula.

No entanto, a dura realidade no bairro pobre de Salvador reflete no dia a dia das famílias, e faz com que várias crianças e jovens acabem trabalhando para ajudar os pais. Segundo o treinador, este cenário vem mudando aos poucos, o que é motivo para comemorar.

“Criança tem que estudar, praticar esportes. Se elas começam a trabalhar muito cedo, pulam etapas importantes na vida”, reconhece.

Investimento e inclusão social

A escadaria da Academia Champions, onde funciona o projeto Campeões da Vida. (Crédito: Arquivo pessoal).

A escadaria da Academia Champion, onde funciona o projeto Campeões da Vida. (Crédito: Arquivo pessoal).

Dórea tem esperança de que a conquista inédita de um de seus atletas sensibilize o poder público e renda novos frutos, como a promessa feita pelo governador da Bahia, Rui Costa, de construir um centro de treinamento de boxe e lutas olímpicas na Bahia em 2017.

“Todos querem abraçar o campeão. Mas esquecem que o vencedor de hoje foi aquela criança de 12 anos atrás, que fez parte de um projeto social. É por isso que precisamos investir no esporte neste país, desde a base. Uma luta que começa bem antes do ringue.”

A vontade de que a medalha se multiplique e permita ao país ter novos “Robsons” é um sonho que o treinador não pretende abandonar tão cedo. Sua ideia é expandir o projeto para outras comunidades carentes de Salvador.

“Quanto mais se investe em esporte, menos se precisa investir em saúde. Quanto mais se investe em educação, menos precisa se investir em segurança, pois a violência também diminui”, conclui.

A equação de sucesso citada pelo treinador, infelizmente, segue distante da realidade de muitas crianças no Brasil. Em um país onde faltam investimentos em políticas públicas que garantam o direito assegurado no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)  de não trabalhar, ter acesso à cultura, à educação, à saúde e à brincadeira, o pleno desenvolvimento físico e psicológico infantil é amplamente prejudicado.

E é neste cenário que o esporte vira esperança. Mais do que proporcionar uma vida saudável e ensinar valores como respeito, solidariedade e determinação, projetos que incentivam a prática são também a chance de um futuro para milhares de crianças e adolescentes do país, tornando-se uma poderosa ferramenta de integração e inclusão social.

“Se não fosse o boxe, talvez não estivesse mais aqui”

O lutador brasileiro Robson Conceição derrotou o francês Sofiane Oumiha e garantiu o ouro na categoria peso ligeiro, até 60 quilos nas Olimpíadas do Rio de Janeiro. (Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil)

O lutador brasileiro Robson Conceição derrotou o francês Sofiane Oumiha e garantiu o ouro na categoria peso ligeiro, até 60 quilos nas Olimpíadas do Rio de Janeiro. (Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Às 4 horas da manhã ele já estava de pé. Com 11 anos, Robson Conceição, ganhador do primeiro ouro olímpico na história do boxe brasileiro, começou a trabalhar com a avó em uma barraca no bairro de Boa Vista de São Caetano, na Bahia. O primeiro contato com boxe veio aos 13 e a rotina, que já era intensa, ficou ainda mais puxada. “Acordava de madrugada para ir à feira com minha avó em São Joaquim, ajudava a montar a barraca e depois ia para a escola. Voltava para continuar ajudando a minha avó e depois ia treinar à noite”, conta.

O boxeador, de 27 anos, também trabalhou em várias profissões como ajudante de pedreiro, funileiro, vendedor de picolé, entre outras ocupações, porque queria fugir do “caminho errado”. Mas apesar do trabalho ter começado cedo em sua vida, preferiria que houvesse outra opção: “Não acho que seja correto a criança ser obrigada a trabalhar. O certo é estudar, brincar e aproveitar quando ainda se é criança”, afirma o campeão.

Se o trabalho foi inevitável para Robson, o boxe foi o caminho encontrado pelo lutador para sobreviver. “Se não fosse o boxe, talvez não estivesse mais aqui. Brigava muito na rua e, a partir do momento em que conheci o esporte, nunca mais briguei”.

Robson, que é contra a redução da maioridade penal, atribui a violência à falta de oportunidade. “Não acho justo punir crianças. Se todas tivessem acesso ao estudo, esportes e projetos sociais, não estariam fazendo coisas erradas.”