publicado dia 28/12/2016

Menino 23: documentário retrata infância roubada em fazenda nazista no interior de São Paulo

por

WhatsappG+TwitterFacebookCurtir

“A minha infância foi roubada.”
Seu Aloísio, no filme Menino 23

A história do filme “Menino 23 – infâncias perdidas do Brasil”, que concorre a uma vaga para disputa do Oscar 2017 de melhor documentário, começa com tijolos escondidos no matagal de uma fazenda antiga. A escolha não é casual.

Em 2005, o historiador Sidney Aguilar Filho escutou de uma de suas alunas um relato sobre tijolos marcados pela suástica nazista na fazenda Santa Albertina, próxima do município de Campina de Monte Alegre, no interior de São Paulo. O docente da Universidade Salesiana (Unisal) se interessou pelo assunto. Em um primeiro momento, pensou investigar as heranças de movimentos nacionalistas, correlacionadas com o cenário fascista e entre guerras que o mundo vivia nas décadas de 1940 e 1950. Ainda não sabia que durante os anos de feitura de sua tese de doutorado, ele estaria mexendo em um vespeiro sobre a infância marginalizada do Brasil.

Entre documentos que se esfarelavam, Sidney conheceu a história de 50 meninos de 9 a 11 anos que trabalharam na fazenda Santa Albertina na década de 1930. Pobres e negros, eles cresceram no orfanato carioca Romão de Mattos Duarte, até que a chegada de um homem com balas no bolso alterou seus destinos.

Selecionados por causa de sua astúcia e disposição para pegar doces jogados na quadra, as crianças foram levadas à fazenda para trabalhar em regime de escravidão: eles capinaram, cuidaram do gado e cavalos, e serviram à família Rocha Miranda, que mantinha ligações com a Câmara dos Quarenta da Ação Integralista Brasileira, movimento simpatizante do fascismo. A pele dos animais ali criados era marcada com suásticas nazistas.

Cena do documentário Menino 23. (Crédito: Divulgação).

Cena do documentário Menino 23. (Crédito: Divulgação).

Memória viva

A investigação da história das crianças deu origem tanto à tese de doutorado “Educação, autoritarismo e eugenia: exploração do trabalho e violência à infância no Brasil (1930-1945)”, apresentada em 2011 na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), quanto ao documentário “Menino 23”, do diretor Belisario Franca e da produtora Giros.

Sidney divide a pesquisa em duas frentes distintas que se complementam entre papel e audiovisual. “Na tese, 70% provém da leitura de documentos e 30% da memória viva, a contada. No documentário, acontece o inverso; a maior parte dele é feita dos fragmentos dessa memória valiosa e dolorosa de personagens que concordaram em cedê-la ao público”, explica o pesquisador.

As memórias preciosas e feridas são as de Seu Aloísio, Seu Argemiro e da família de José Alves de Almeida. Seu Aloísio – o Menino 23, porque não davam nome aos meninos trabalhadores – é um corpo vergado pela falta de infância. Um homem que percorre os labirintos de sua revolta, de não ter como responsabilizar quem fez dele “um homem sem futuro”.

Seu Argemiro foi o único dos meninos que conseguiu fugir da fazenda. Mas a fazenda não saiu de sua vida. Por muito tempo, ele foi morador de rua.

José Alves, o Dois, vive nas lembranças de sua esposa e filhos; foi empregado doméstico na fazenda Santa Albertina e, embora acreditasse em situação melhor, cresceu com cicatrizes e tristezas persistentes.

(Crédito: Divulgação/Menino 23).

(Crédito: Divulgação/Menino 23).

Marcas na pele

“Posso dizer, depois dessa experiência, que me considero um historiador de traumas. A pesquisa da memória foi um processo doloroso, tanto para mim quanto para eles, e me considero um privilegiado de poder ter ouvido suas histórias e construído uma relação de mútuo respeito”, diz Sidney. “Isso só aconteceu porque tivemos a honestidade de assumir: nossa maior preocupação não é a história de vocês, e sim, a contemporânea, com o futuro de uma infância marginalizada, que precisa que suas memórias sejam de domínio público para que não se repitam.”

Outro processo intenso da feitura, tanto da tese quanto do filme, foi estar ante de um campo teórico que ele descreve como não “menos angustiante”. Porque a história de abuso do Menino 23 mostra que a cronologia do Brasil não ficou imune às influências de movimentos totalitaristas exteriores, nem aos abismos criados por uma colonização escravocrata e racista.

“Foi muito dolorido descobrir que o que aconteceu com os 50 meninos, uma escravidão contemporânea, não foi só respaldado legalmente como também socialmente aceito. Encontrar legisladores brasileiros defendendo práticas racistas e segregacionistas foi bem pesado.” Sidney complementa que isso se reflete na própria repercussão do filme: muitos espectadores chegaram até ele ou foram atraídos não pela discussão sobre trabalho infantil, e sim pela temática polêmica do inusitado nazismo brasileiro.

(Crédito: Divulgação/Menino 23).

(Crédito: Divulgação/Menino 23).

História sem desfecho

Entre depoimentos de especialistas e narrativas sofridas de Seu Aloísio e de seu Argemiro, o filme é entrecortado por delicadas criações ficcionais que mostram meninos trabalhando entre capim e gado. O que se desenha no documentário “Menino 23” é uma história que ainda não encontrou desfecho.

“Continuamos a ser, como há 40, há 200 anos, um país da negação. Não somos racistas, mas somos racistas. Somos um país cheio de gente pacífica, mas muito violento. Temos umas das melhores legislações para proteger as crianças, e como sociedade, violamos assustadoramente nossa juventude, principalmente a pobre, negra e periférica”, conclui o historiador. “Quando a gente percebe na sociedade essa brutalidade seletiva, temos de nos envergonhar individual e coletivamente por ela persistir.” Para o diretor, a importância do filme está justamente em causar reflexões.

Pouco antes de morrer de velhice em Campina de Monte Alegre, cidade da fazenda onde roubaram sua infância, Aloísio pôde ver o filme e dar a aprovação de que seu relato se tornasse público.

Já Seu Argemiro, que com 90 anos divulga o documentário, fica orgulhoso quando o vê sendo exibido ou ao falar com jornalistas.

Das histórias desses meninos sem nome, uma mensagem resiste: que crianças nunca sejam apenas números, e que histórias como essa não mais se repitam.

A importância de uma produção audiovisual
que conte a história do país

(Crédito: Divulgação/Menino 23).

(Crédito: Divulgação/Menino 23).

Muitos dos espectadores do documentário “Menino 23 – infâncias perdidas no Brasil” chegaram até o filme atraídos pela temática do nazismo, e não pela discussão de uma herança escravocrata ou do trabalho infantil. Para Marco Santana de Oliveira, coordenador da UneAfro Brasil, isso retrata um desconhecimento estratégico da história do país: se um espectador brasileiro se choca com o nazismo, mas encara a escravidão como um processo histórico e não a critica, ele não consegue fazer a associação de quão danosos foram os processos formativos do Brasil como nação para grande parte de sua população, principalmente a negra.

Para que essa alienação ocorra, a educação escolar e a mídia têm um papel fundamental, como mostrado no próprio documentário em cenas de jornais e programas que reforçam estereótipos raciais.

“O Brasil atual não conhece a sua história porque ela é maquiada no ensino propositalmente. É óbvio que conhecemos mais de Adolf Hitler e Benito Mussolini que Zumbi dos Palmares e Luis da Gama. O Brasil tem como data histórica a invasão de 1500, 516 anos de existência onde 388 foram de escravidão, assassinato, tortura, estupro, mas conhecemos e estudamos mais os 12 anos de Holocausto do nazismo”, afirma. “Temos leis como a 10.639/10 que obriga as escolas a ensinar história e culturas africanas e indígenas no currículo escolar, mas por crença religiosa, conservadorismo politico e falta de acompanhamento, isso não acontece”, explica o historiador.

Marco acrescenta ser importante que produções audiovisuais como “Menino 23” alcancem o maior público possível e ajudem a criar uma mídia disposta a contar a verdadeira história do Brasil.

“Consumimos muita informação televisiva de grandes grupos familiares e do mercado cinematográfico norte-americano. Qualquer forma de proliferação do conhecimento, principalmente da história efetiva do Brasil, é extremamente importante. Temos de ocupar espaços. Não acredito que viveremos tão cedo uma evolução de igualdade racial, social e de gênero, mas acredito na formação de base como principal forma de combate ao racismo estrutural.”