publicado dia 20/09/2017

Juvenicídio gota a gota: de que morrem os jovens colombianos?

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Na Colômbia, mais de cinco mil jovens foram assassinados pelo exército nos últimos dez anos. Em sua maioria, camponeses recrutados com promessas de trabalho, que acabaram mortos como guerrilheiros em combate. Há ainda grupos inteiros que fugiram levando a própria casa nos ombros e fazendo da Colômbia o país com o maior número de refugiados internos do mundo. São vítimas da guerra contra o narcotráfico, dos conflitos armados e vítimas do próprio Estado, que deveria protegê-los.

Os fatos acima são apresentados pelo professor universitário e pesquisador, colombiano, Germán Muñoz. Morador de uma cidade provinciana próxima a Bogotá. Muñoz é o diretor responsável pelo Doutorado em Ciências Sociais, Infância e Juventude na Universidade de Manizales e conduz uma linha de pesquisa chamada Jovens, Cultura e Poder, voltada para a América Latina e a Colômbia, em especial.

Para o professor, a guerra segue sendo parte da vida nacional, ainda que recentemente se tenha estabelecido um acordo de paz do governo com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Um cenário de violência que afeta toda a população civil, principalmente as crianças e os jovens do país.

Germán Muñoz

Germán Muñoz

Muñoz falou com exclusividade à Rede Peteca Chega de Trabalho Infantil sobre esse e outros temas relacionados à infância e à juventude colombiana. Confira a entrevista.

Quais são as principais consequências da guerrilha e do narcotráfico na vida de crianças e jovens do país?

Há mais de 50 vivemos uma guerra não declarada, que envolve diversos atores sociais no país, como movimentos de grupos armados e narcotraficantes, além do Estado, que participou diretamente desse conflito armado por meio do exército e da polícia. Essa guerra afetou toda população civil, mas, particularmente, as crianças e os jovens que perderam suas famílias, sofreram mutilações nos campos minados, torturas, violência sexual e recrutamento forçado por parte de grupos armados. Os que sobreviveram foram obrigados a sair de suas casas e a migrar para outros lugares. Essa história é parte da vida de milhões de pessoas no país e ao menos metade delas é menor de 18 anos.

E qual o impacto dessa migração forçada para as crianças e adolescentes?

Estamos falando cerca de sete milhões de colombianos que deixaram tudo para trás: suas casas, seus amigos, seu passado. É uma situação muito séria porque quando os camponeses e indígenas chegam às cidades, são obrigados a instalar-se em bairros periféricos, e não há políticas públicas estruturadas para atendê-los. Muitos continuam sofrendo ameaças das forças armadas, que os consideram perigosos porque fugiram. Quando as crianças vão às escolas, são identificadas como filhas de refugiados e sofrem com humilhações e discriminações.

Qual é a situação do conflito armado no país atualmente?

No final do ano passado, diversas negociações do governo do presidente colombiano Juan Manuel Santos culminaram em um acordo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Entretanto, isso não significa que a paz foi instaurada no país de maneira estável e duradoura. Ainda há uma divisão significativa da população sobre a ratificação dos acordos de paz, no que se refere à forma de sancionar e aplicar justiça aos atores que participaram da guerra. Sem contar que a população civil, que esteve no meio do conflito durante todo esse tempo, não foi ouvida ou teve a oportunidade de se manifestar.

O senhor está dizendo que os mais afetados pela guerra não tiveram participação nessa decisão?

Sim, é um paradoxo. Mas a verdade é que não foi exatamente uma vontade de buscar a paz, mas um proveito político e econômico que interessava a diversas parcelas da população. Afinal, foram milhares de mortos e uma guerra que demorou tempo demasiado para acabar e que não resultou em nenhuma vitória. A guerra ocupava territórios de interesse e não permitia que o país tivesse o modelo econômico esperado, então a paz, antes de tudo, era necessária.

Em suas pesquisas o senhor chama atenção para os crimes cometidos pelo Estado, os quais chama de “Falso Positivos”. Poderia explicar melhor do que se trata esse fenômeno?

Estamos falando aqui de uma forma particular de violência muito grave e cruel que faz parte do mesmo fenômeno. Jovens que tinham uma forma de vida muito precária e, em sua maioria, faziam parte de famílias de camponeses que se deslocaram para outras regiões por conta dos conflitos.

Ao todo, foram 5.700 jovens assassinados pelas forças militares durante 10 anos do governo Uribe (2002-2012). Eles foram falsamente apresentados como guerrilheiros mortos em combate com o objetivo de mostrar êxito na política de “segurança democrática” e obter recompensas e benefícios econômicos. Não são apenas assassinatos, mas crimes de Estado que foram cometidos com consentimento de generais, comandantes e com respaldo da cúpula militar e do governo. É uma situação atroz que faz parte das diferentes formas de crimes que resultam no juvenicídio que ocorre gota a gota no país.

No que consiste o juvenicídio gota a gota?

Os 5.700 assassinatos de civis são apenas uma parte da violência. Há um movimento que não se vê e que os meios de comunicação nunca irão destacar que é o juvenicídio social, político, laboral, simbólico. Ou seja, são assassinatos sem sangue ou escândalos sociais, mas que são reais e acontecem diariamente com os jovens, gota a gota. Essa forma de eliminação, que também acontece com os jovens pobres e negros no Brasil é tão significativa quanto às outras porque é aceita socialmente e não é prioridade para o governo.

Há um movimento que não se vê e que os meios de comunicação nunca irão destacar que é o juvenicídio social, político, laboral, simbólico. Ou seja, são assassinatos sem sangue ou escândalos sociais, mas que são reais e acontecem diariamente com os jovens, gota a gota.”

O senhor citou agora Brasil como exemplo no caso de assassinato contra jovens pobres e negros. Aqui, em paralelo a violência, há um movimento social crescente de grupos e coletivos que lutam contra o genocídio negro. Como se dá a participação dos jovens na Colômbia no combate ao juvenicídio?

A situação do Brasil é muito particular. De uns anos para cá, a partir de diversos fatores políticos e sociais, os jovens começaram a reivindicar os seus direitos e tomar consciência do que significava ser negro e pobre ao mesmo tempo no país. E os movimentos ganham força em um país onde metade da população é negra, ainda que essa metade sempre tenha sido invisibilizada. Já na Colômbia, a população negra ou indígena não é a maioria e não é possível afirmar que temos um movimento unificado, visível e participativo no país. Mesmo assim, uma parcela de jovens, filhos de camponeses e indígenas ou universitários, faz parte de coletivos políticos, culturais, ambientais e integram grupos de resistências.

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No Brasil mais de 2,6 milhões de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos estão em situação de trabalho infantil. Qual sua visão sobre o tema, a partir da perspectiva colombiana?

O debate sobre trabalho infantil é muito importante e está na agenda de muitos governos. Penso que na Colômbia há um ciclo vicioso de falta de políticas públicas, oportunidades e questão de sobrevivência de jovens que se veem obrigados a trabalhar em territórios onde se produzem psicoativos, como cocaína e maconha, por exemplo, porque não têm perspectiva econômica ou de futuro profissional.

A redução da maioridade penal é outro debate recorrente no Brasil. Como está a discussão na Colômbia?

O tema da redução da maioridade penal não é parte da discussão nacional porque a população juvenil não é prioridade para o governo. Creio que esta é uma questão que está relacionada a políticas públicas e planejamento focados na juventude, uma agenda que ganhou um significado importante ao longo dos anos, mas que infelizmente ficou no papel e nunca se converteu em ações efetivas no país.

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