publicado dia 26/04/2019

Família rompe o ciclo do trabalho infantil em busca da superação da pobreza

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O ponteiro do relógio apontou para as 13 horas. “Coloca o uniforme para ir para a escola”, orientou Bárbara, mãe de João, de 5 anos. Para sair do beco onde fica a casa da avó em uma comunidade do Jardim Angela, extremo sul de São Paulo, o menino passou por dois adolescentes traficantes da região.

Crédito: Tiago Queiroz

Eles não tinham mais de 16 anos. Estavam ali fumando maconha, em cima da moto que chama atenção em meio a tanta pobreza. O salário de quem trabalha na biqueira chega a 5 mil reais por mês.

A cena marcante traduz a vida nas periferias. Ali se cruzavam duas trajetórias com rumos completamente diferentes. Recém-saída da infância, a dupla de traficantes já estava aliciada pelo crime. O tráfico de drogas é considerado uma das piores formas de trabalho infantil, de acordo com a Lista TIP, da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Crédito: Tiago Queiroz

Por outro lado, João é a primeira geração da família a não trabalhar na infância, podendo se dedicar apenas aos estudos. Hoje com 23 anos, Bárbara foi mãe aos 18 e sustenta dois filhos com os 170 reais mensais obtidos pelo Bolsa Família. Ela está desempregada há dois anos. Antes trabalhava como cozinheira em um shopping na região central da cidade.

Crédito: Tiago Queiroz

Há um abismo entre os vizinhos que se cruzam diariamente no mesmo beco. A pobreza ainda marca a realidade de ambos, mas a escolha dos caminhos, da educação ou da criminalidade, pode mudar a história de suas famílias. Romper com o trabalho infantil, apesar das enormes dificuldades e da falta de políticas públicas à altura do problema, ainda representa a melhor chance de superar um longo ciclo de marginalização. É o que mostram diversos estudos. E o que a família de João sente na pele.

A importância da educação

Bárbara recebeu a reportagem na casa de sua mãe Judite. Era hora do almoço, mas não tinha aquele cheirinho de feijão. Judite teve doze filhos e a idade dos caçulas regula com a idade dos quatro netos, dois filhos de Bárbara e dois filhos de sua irmã Ana, de 22 anos.

Entre filhos e netos, nove crianças e adolescentes de 10 meses a 18 anos passam os dias juntos na comunidade. A alimentação fica por conta da merenda da escola, a dois quarteirões de onde vivem.

Crédito: Tiago Queiroz

“Tem um cardápio pendurado na parede para os pais verem o que vai ser servido na semana toda. À tarde, eles também tomam lanche. Como a minha filha mais nova fica na creche o dia todo, ela faz todas as refeições por lá”, conta Bárbara.

Essa é a sorte. Com a baixa renda, a mãe disse que não consegue garantir a alimentação que gostaria para os filhos. É apertado. Fruta, pão, iogurte, carne, suco… “Só com o Yakult, vão 60 reais no mês”, contabilizou. “Eles têm vontade de comer as coisas. São crianças.”

Além da alimentação, Bárbara considera que a escola proporciona outras experiências importantes para as crianças. Ela elogia as professoras e acredita que a educação será o caminho para o rompimento do ciclo da pobreza.

Moradia

A casa tem sala, quarto, cozinha e banheiro, mas sem janela nos cômodos. Para iluminar, luz elétrica improvisada. No quarto, as crianças já sabem encostar os dois fios desencapados para acender a lâmpada pendurada. É lá onde dormem os cinco moradores da casa. No banheiro, não há descarga.

Crédito: Tiago Queiroz

Sentada no sofá, Bárbara contou que começou a trabalhar com 13 anos, vendendo churrasco na porta de estádios. Ela era levada de carro pela vizinha, junto com sua irmã Ana, com 10 anos na época. Como os jogos são à noite, elas chegavam tarde em casa. Cansadas, acabavam faltando na escola.

Crédito: Tiago Queiroz

O desinteresse pelos estudos resultou na evasão escolar de Bárbara no oitavo ano do Ensino Fundamental e Ana, no primeiro ano do Ensino Médio.

Profissionalização

Sem nenhum curso técnico, Bárbara se tornou cozinheira e trabalhou em restaurantes de shoppings da cidade. Desempregada há dois anos, ela diz que gostaria muito de arrumar um emprego, mas relata a dificuldade de conseguir sem indicação. “A maioria das vagas também exigem Ensino Médio”, lamentou.

Crédito: Tiago Queiroz

Embora ela queira voltar a estudar, a falta de renda dificulta. Segundo Bárbara, seria preciso primeiro arrumar um emprego para depois voltar à escola no período da noite. Assim poderia pagar alguém para olhar as crianças. “Eu quero que eles completem o Ensino Médio, façam uma faculdade e se profissionalizem, para terem uma vida diferente da minha” comentou.

Crédito: Tiago Queiroz

Para a filha de 3 anos, ela deseja que a menina estude e trabalhe antes de casar e ter filhos. “Eu fui mãe cedo e embora ame meus filhos não desejo isso para eles. Acho que minha filha precisa primeiro ter a vida dela para depois escolher qual será o pai dos filhos.”

Pobreza

Apesar da pobreza, as mães fazem um grande esforço para manterem as crianças na escola.  A consciência a respeito dos malefícios do trabalho infantil veio a partir da abordagem da assistência social e da história de vida das mulheres da família.

Crédito: Tiago Queiroz

A matriarca Judite, de 47 anos, começou a trabalhar aos 10 na roça, na Bahia. Ela cuidava da plantação da família e cuidava dos bichos. Parou de estudar no quinto ano. Segundo ela, a professora da escola rural já não sabia mais o que ensinar.

Aos 15, veio para Guarulhos, cidade da região metropolitana de São Paulo, trabalhar na casa de uma família. Ela tinha um quarto e fazia todo o serviço doméstico, sem horário definido. Engravidou aos 16 anos e teve nove filhos com o primeiro marido.

Quando a patroa se mudou de cidade, eles se mudaram para o Jardim Ângela, onde viveram por cinco anos em um barraco de madeirite. Foi juntando as economias que conseguiu comprar a casa onde vive hoje.

Crédito: Tiago Queiroz

Após quinze anos de casamento, Judite se divorciou e ficou responsável pelos filhos. Teve mais três de um segundo relacionamento. Como trabalhou desde cedo, não entendia ao certo as consequências do trabalho infantil e reproduziu o ciclo com os filhos. As meninas mais velhas eram aquelas que vendiam espetinho na porta dos estádios.

Crédito: Tiago Queiroz

Mas foi com Luiz, de 11 anos, que tudo começou a mudar. Quando saiu do emprego como faxineira de uma escola, Judite começou a coletar papelão na rua e o menino a acompanhava, até que a assistência social identificou a família e realizou a abordagem.

Mudança

Embora Luiz, na época com 9 anos, estivesse acompanhado da mãe, ele também ficava vulnerável. A assistência o inscreveu em atividades de contraturno escolar em serviços da prefeitura.

Crédito: Tiago Queiroz

As orientadoras socioeducativas também passaram a visitar a família de Judite, que não conhecia muito bem os caminhos de acesso ao Bolsa Família. Com apoio das profissionais, a situação foi regularizada. Atualmente, Judite, Bárbara e Ana, as três mães da família, recebem o apoio.

Mas para ganhar a bolsa, as crianças precisam estar na escola e fora do trabalho infantil. Além dessa exigência, as orientadoras realizaram um importante processo de conscientização, que transformou a mente dessas mulheres.

Crédito: Tiago Queiroz

Muitas vezes, a consciência é a única ferramenta que as famílias podem ter nessa luta, pois o Estado oferece poucas políticas públicas como porta de saída. A única esperança se torna a própria resistência. É preciso sobreviver dia adia, para garantir um futuro diferente, com acesso à educação e ao mercado de trabalho digno para as gerações futuras.

Crédito: Tiago Queiroz