publicado dia 11/10/2016

O afeto no lugar do brinquedo, sem a necessidade do consumo excessivo

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Uma das formas mais legítimas de comemorar o Dia da Criança, celebrado em 12 de outubro, é a plena vivência da infância. É direito da criança não trabalhar, ter acesso à cultura, à educação, à saúde e à brincadeira. Para isso, no entanto, não é preciso consumir. Brincadeiras não estruturadas, contato com a natureza e atividades que incentivam a imaginação e o autoconhecimento são cada vez mais valorizadas. O afeto no lugar do brinquedo e o consumo colaborativo em troca do acúmulo são pistas de como celebrar o Dia da Criança de forma mais saudável.

Isabella Henriques, diretora do Instituto Alana e coordenadora do Programa Criança e Consumo, acredita que o consumismo prejudica a vivência plena da infância, por formar valores materialistas. “Se a gente constrói uma sociedade que acredita que o ter é mais importante que o ser, a busca pelo material ficará acima de qualquer outro valor. Teremos uma sociedade egoísta”, comenta Isabella. “Quando pensamos em criança, pensamos não somente na criança de hoje, mas naquela que vai construir a sociedade amanhã”, completa.

Além das consequências na construção de valores humanistas, existem impactos reais do consumismo na vida das crianças. “Temos pesquisas no mundo inteiro que ligam a publicidade de produtos alimentícios com o aumento do sobrepeso infantil, que é um grande problema de saúde pública”, conta a diretora do Instituto Alana. (Um exemplo é o documentário Muito além do peso – que mostra e discute o fenômeno da obesidade infantil no Brasil e no mundo).

Ainda segundo Isabella, outro fator importante causado pelo consumo e pelo excesso de propagandas é a erotização precoce, sem contar a degradação do meio ambiente, pelo uso de recursos naturais esgotáveis para a confecção de brinquedos. “A própria violência tem relação com o consumismo, porque grande parte dos adolescentes em conflito com a lei cometeram crimes patrimoniais, motivados pelo desejo em consumir.”

A importância de brincar livremente

Em contrapartida, a criança que brinca de forma espontânea se desenvolve melhor. De acordo com a criadora do projeto Criança e Natureza, Laís Fleury, meninos e meninas acessam seus desejos e os materializam no brincar. “Quem brinca com autonomia está mais conectado consigo mesmo. As escolhas vão revelando as singularidades de cada um e permitem a construção do ser.”

Para Laís, a melhor forma de se comemorar o Dia da Criança é oferecer aos pequenos a oportunidade de brincar sem consumir. “Podemos convidá-los para um passeio no parque, por exemplo. Podemos também participar ou organizar uma feira de troca de brinquedos, que estimula a socialização e o exercício de desapego, além de colocar em prática a economia solidária e o consumo colaborativo”.

Confira algumas sugestões que podem dar um sentido especial à data:

BRINQUE NA NATUREZA

Crédito: Massacuca

Crédito: Massacuca

Lais Fleury (Criança e Natureza): “Quem nunca viu uma criança com um pedacinho de pau na mão, fazendo desenhos na areia e minutos depois este mesmo pauzinho se transforma na espada do príncipe ou na vara de condão de uma princesa?

Possibilitar às crianças o brincar na natureza é um investimento em seu bem-estar e de toda a família, pois provoca o equilíbrio interno. O contato com a natureza traz benefícios diretos à saúde da criança e contribui para o seu desenvolvimento intelectual, social, emocional, espiritual e físico. Estudos reconhecem a natureza como prevenção para doenças físicas e mentais, além de ressaltar o que pais e educadores sensíveis já notam – as crianças ficam mais fortes, concentradas, criativas e com controle motor mais desenvolvido quando têm a oportunidade de brincar ao ar livre com frequência.

Os efeitos da natureza têm sido testados particularmente em crianças diagnosticadas com TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade), tendo em vista o aumento expressivo de diagnósticos observado nos últimos anos. Pesquisadores norte-americanos descobriram que uma simples caminhada de 20 minutos em um parque urbano é capaz de trazer mais concentração a essas crianças do que o mesmo tempo de caminhada pelo centro da cidade. Outro estudo relata que os pais de crianças com déficit de atenção foram questionados sobre seu desempenho relativo à concentração após as crianças terem realizado atividades de lazer em diferentes áreas. Os resultados mostraram que elas tiverem um desempenho melhor após brincarem em áreas verdes e que, quanto mais verde era a área de brincar, menos severos eram os sintomas de déficit de atenção.”

CRIE SUAS PRÓPRIAS BRINCADEIRAS

Crédito: Massacuca

Crédito: Massacuca

Graziella Iacocca (Massacuca): “Crianças são naturalmente curiosas e criativas, capazes de transformar qualquer objeto em brinquedo ou brincadeira. No Massacuca buscamos propor atividades que preservem esse olhar mais lúdico do mundo, onde o inventar e o faz de conta estão sempre muito presentes. Alguns adultos esquecem como é simples criar brincadeiras e acabam recorrendo a um excesso de brinquedos, que geralmente fazem com que as crianças percam o interesse rapidamente.

No excesso de consumismo infantil, tudo é descartável. Cada vez mais nos obrigamos a comprar, por causa da criação de novos personagens. Buscamos criar um olhar nas crianças que as coisas podem ser transformadas ao invés de descartadas.” [Confira as experiências no site do projeto].

TROQUE BRINQUEDOS

Crédito: Massacuca

Crédito: Massacuca

Isabella Henriques (Criança e Consumo): “A gente acredita que a Feira de Troca de Brinquedos é uma atividade lúdica, que ensina as crianças a entenderem que a troca pode ser mais divertida do que ganhar um brinquedo novo. Incentivamos as pessoas a criarem suas próprias feiras. Podemos, por exemplo, chamar os vizinhos e organizar um evento no salão do prédio.

As próprias crianças são capazes de organizar esses momentos de confraternização, quebrando os muros da rotina e gerando um novo olhar. A garotada se diverte muito e sai com um brinquedo que é novo para ela. É divertido observar os critérios das crianças e a forma como elas valorizam os objetos. Elas precificam os brinquedos de forma mais livre. É um aprendizado tanto para elas, quanto para os adultos.

Na semana do Dia da Criança, o Instituto Alana organiza Feiras de Troca de Brinquedos em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e Amazonas. [Confira a programação completa.]

Se você quiser organizar seu próprio evento, pode obter dicas e informações sobre o passo a passo.Tem até modelos de convite e de cartazes para a divulgação.”