publicado dia 27/03/2017

Além da etiqueta: o trabalho infantil na indústria da moda em Bangladesh

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Um córrego poluído exala um cheiro forte de esgoto. A paisagem é cinza, e há dezenas de grandes prédios com concreto à vista, tão perto uns dos outros que basta esticar o braço para tocar o edifício ao lado. Entre uma janela e outra, varais improvisados acumulam retalhos de tecido usados pelas mulheres como absorventes. Do lado de dentro, uma infinidade de salas e escadas na penumbra, com pouquíssima luz natural.

A energia elétrica, vinda de ligações precárias e fios desencapados, é prioridade das máquinas de costura. E é atrás delas que uma geração de crianças e adolescentes perde a sua juventude na periferia de Daca, capital de Bangladesh, onde milhares de fábricas clandestinas alimentam a indústria da moda.

A cidade, no sudeste asiático, tem a maior densidade populacional do planeta, e um enorme contingente de trabalhadores mirins nas suas confecções. Em 2013, despertou a preocupação das grandes grifes internacionais após um complexo de oito andares com confecções desabar na Praça Rana, matando mais de 1.100 pessoas.

Dois anos depois, apesar de investimentos na segurança das produções formais, a situação das instalações irregulares continuava a mesma. Foi o que retratou o fotógrafo mexicano Claudio Montesano Casillas, no projeto “Beyond the Label” (“Além da Etiqueta”). Ele morou em Daca, conviveu com sua população e fez as imagens que você confere aqui ao longo de 2015.

Nas fotos, publicadas pela primeira vez por um veículo brasileiro, é possível ver os bastidores da pobreza, da exploração e de um cotidiano de trabalho que, até hoje, segue colocando em risco a vida e o futuro dos jovens no país.

Confira abaixo a entrevista com o fotojornalista, veja as outras fotos da série e conheça mais de seu trabalho, no Instagram.

Claudio Montesano Casillas © 2017

Vista de região fabril na periferia de Daca: poluição e prédios com inúmeras pequenas confecções. Crédito: Claudio Montesano Casillas © 2017

Como foi seu primeiro contato com essas confecções informais em Bangladesh?

Visitei a parte antiga de Daca pela primeira vez em dezembro de 2014. Estava no meu segundo dia no país e precisava de alguém para me guiar, já que não existe muito turismo por lá. Um rapaz chamado Hasan, jovem universitário que estuda literatura inglesa, me levou para um “tour” individual. Ele apenas me perguntou se eu queria ver algumas fábricas, um programa aparentemente popular entre os estrangeiros. Esses prédios são abertos, sem cadeados ou guardas. Você só precisa se situar e falar a língua.

O que quis mostrar com o ensaio fotográfico?

Quando fiz essa reportagem eu já estava morando em Daca havia um ano. Eu tentei me integrar ao máximo com a comunidade e a bela língua local, o bengali. A Velha Daca é um lugar fascinante, parece um teatro vivo.

Documentar essa indústria literalmente me levou a diferentes lugares em Bangladesh. Sempre com a atenção voltada para as condições de trabalho. Eu quis explorar novas formas de mostrar essa indústria.

Quando você olha a etiqueta do seu jeans ou da sua camiseta nova, as únicas informações que aparecem normalmente são o tipo de tecido e o país onde a peça foi feita. Com meu trabalho, eu queria ir além dessa etiqueta convencional e documentar as pessoas que vivem nas sombras da indústria de vestuário. Quem faz as roupas que usamos? Onde essas roupas são produzidas e em que circunstâncias?

O que sentiu ao entrar nessas instalações?

Um prédio não abriga uma única fábrica, mas centenas de fábricas informais. Todos os pisos são lotados de pessoas e máquinas de costura e não existe nenhuma condição de segurança ou saída de emergência. Foi muito estranho para mim estar lá, porque eu não estava familiarizado com a indústria têxtil, muito menos com essa.

A Região Metropolitana de Daca tem mais de 17 milhões de pessoas, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU)

Bangladesh é um país extremamente povoado. Tem mais de 160 milhões de habitantes em um pedaço de terra do tamanho da Grécia. Deca é a cidade com a maior quantidade de pessoas por metro quadrado do mundo, então o conceito de espaço pessoal é estranho para a maior parte dos moradores.

Eles estão tão acostumados a estar fisicamente perto uns dos outros que é normal ficar em locais superlotados. A sensação geral quando entrei nas ruas da cidade antiga, especialmente na área das fábricas, era de estar em uma parada comemorativa no México ou nos Estados Unidos, só que em Bangladesh isso acontece todo dia, o dia todo, em todo lugar.

Instalações têm pouca luz natural e eletricidade é prioridade das máquinas de costura. Crédito: Claudio Montesano Casillas © 2017

Instalações têm pouca luz natural e eletricidade é prioridade das máquinas de costura. Crédito: Claudio Montesano Casillas © 2017

Como descreveria as condições das crianças, especificamente?

Elas sofrem todo tipo de violação que você possa imaginar. Carga horária excessiva, exposição a situações perigosas, como choques, má qualidade do ar, pouca iluminação, barulho, falta de saídas de emergência, instalações precárias, ausência de banheiros, nenhuma ergonomia, pagamento irregular, nenhuma liberdade de associação sindical, entre outra coisas. O salário mínimo oficial nas fábricas formais é de cerca de 63 dólares por mês, mas muitas vezes as pessoas nas fábricas clandestinas ganham entre 40 e 50 dólares por mês.

  • Carga de trabalho média de crianças ultrapassa 60 horas semanais, mostra estudo da organização Overseas Development Institute (ODI)
  • Muitas crianças comem, tomam banho e dormem nas fábricas

O que leva as pessoas a trabalhar nas fábricas da periferia de Daca?

As condições gerais de vida em Bangladesh não melhoram. Permanece um círculo vicioso e esses trabalhadores continuam existindo. As pessoas estão desesperadas para sobreviver e se esses lugares fornecem o mínimo para a subsistência, continuam trabalhando lá. Bangladesh já está em risco e muitas pessoas são migrantes ambientais. Essas pessoas vão para as cidades e esse tipo de trabalho em fábricas é o melhor que conseguem encontrar, porque não é exigida nenhuma habilidade específica.

Crédito: Claudio Montesano Casillas © 2017

Crédito: Claudio Montesano Casillas © 2017

Viu peças de grifes famosas sendo produzidas nas fábricas?

A ONG Repórter Brasil possui um aplicativo que oferece ao consumidor informações sobre as marcas envolvidas em casos de trabalho escravo na indústria do vestuário no Brasil.

Disponível gratuitamente nos sistemas IOS e Android, a ferramenta Moda Livre possui 77 companhias listadas com base em quatro indicadores: política, monitoramento, transparência e histórico.

Essas fábricas produzem principalmente para o mercado local [Bangladesh e Índia]. Pessoalmente, não vi as pessoas produzindo roupas para nenhuma grande marca internacional, mas é de conhecimento geral que, algumas vezes produzem roupas para grifes por meio de subcontratos, quando a mão de obra das fábricas formais já está comprometida ou quando querem reduzir custos de produção.

Todo tipo de roupa é feito nessas confecções. Não acredito que as calças de couro sintético, por exemplo, sejam para o mercado local.

Viu alguma fiscalização ou sentiu algum receio dos empregadores em relação a isso durante suas visitas?

As fábricas não enfrentam realmente o risco de serem fechadas. O governo de Bangladesh é muito corrupto e o departamento de inspeção do trabalho ainda é relativamente pequeno. Depois do acidente na Praça Rana, um contingente extra de inspetores foi contratado e está sendo treinado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT). As fábricas formais de Bangladesh, voltadas para exportação, têm sido inspecionadas quanto a questões de segurança e incêndio por duas organizações certificadoras: Accord e Alliance, além da OIT. Mas isso não se aplica às fábricas informais.

Até pouco tempo, não se sabia com clareza nem o tamanho da indústria de vestuário formal. Dessa forma, se desconhece quanto exatamente as fábricas informais produzem e para quais mercados.

No momento, não há a menor condição de inspecionar todas as fábricas ou estabelecimentos. E mesmo que os inspetores achem irregularidades, não há uma Justiça do Trabalho que funcione, ou autoridade capaz de fechar esses lugares. Se isso acontecesse, os donos das fábricas conseguiriam se realocar em prédios igualmente precários.

Você também foi a fábricas legalizadas. Quais são as diferenças em relação às clandestinas?

Nas fábricas formais voltadas para exportação existe um esforço muito maior das marcas e empregados em tornar as condições de trabalho aceitáveis. O estado dos prédios, equipamentos, a carga horária, ergonomia, qualidade das máquinas, controle de ruído, de poeira estão próximos dos padrões internacionalmente aceitos.

Crédito: Claudio Montesano Casillas © 2017

Crédito: Claudio Montesano Casillas © 2017

Como vê o futuro dos trabalhadores das fábricas informais, adultos e crianças?

Imagine que todos os dias quando acorda seu único objetivo é sobreviver até a manhã seguinte. Você tem que conseguir dinheiro suficiente para comer e dormir. Se tiver sorte, consegue juntar uma fração mínima. Não consegue ter uma noite normal de sono, apenas 4 a 5 horas por dia. Não tem seu próprio quarto nem a própria cama, possui duas camisetas e uma calça.

Se lava com a água disponível em uma bomba ou fonte natural. Tudo é úmido, escuro e empoeirado. Em uma sala com trinta metros quadrados, é convive com mais até 20 pessoas do seu lado. Quando vai ao trabalho, arrisca sua vida em um trânsito maluco, com buracos na pista, em carros ou tuk-tuks (veículos típicos de três rodas) inseguros. Há barulho em todo lugar.

Quando seu dia a dia é assim, como pode esperar que seu trabalho seja muito melhor? Bangladesh tem um longo caminho a percorrer.

 


O trabalho infantil e o lado obscuro da indústria da moda