publicado dia 19/10/2018

TV Cultura exibe série especial de entrevistas sobre a realidade da criança brasileira

por Anna Luiza Calixto

“Quem é a criança que nasce em plena era digital? Como a sociedade a vê? Como a Escola a trata?” – Andresa Boni, apresentadora do Programa Panorama (exibido na TV Cultura) utiliza-se destas palavras para introduzir a discussão sobre a circunstância em que crescem as crianças durante a globalização e informatização do mundo; bem como – no território brasileiro – desenvolvem-se em plena crise política.

As entrevistas transcorreram temas que vão desde a colonização brasileira, atravessando em nossa linha do tempo momentos históricos marcados pelo não reconhecimento da criança enquanto sujeito de direitos, bem como pela naturalização da violência a este público, até capítulos imprescindíveis e memoráveis por nossas conquistas e pela contextualização destes meninos e meninas enquanto atores sociais, cujos direitos precisam ser protegidos e vistos como prioridade absoluta.

A Série que celebra a data e homenageou os pequeninos em edições inéditas foi ao ar nos dias 10, 11 e 12 de outubro, mas mantém-se disponível no site da emissora, no YouTube e no aplicativo Cultura Digital.

Mesmo que todos um dia passem por este período fundamental, os conceitos sobre a infância renovam-se e são responsáveis por readequar a perspectiva sob a qual este público é concebido em sociedade – ao passo que também readéqua-se a forma com que os mesmos concebem a sociedade.

Para falar sobre os caminhos percorridos pela garotada nos últimos tempos, o Panorama recebeu no sofá Mary Del Priore, historiadora e autora premiada por diversos livros, como História das Crianças no Brasil, e a socióloga Anete Abramowicz, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo – USP. Destacando questões sobre os curumins catequizados pelos jesuítas, as marcas e sequelas do Código de Menores, além de discutir a questão do trabalho infantil no processo da colonização exploratória do Brasil.

Abordando aspectos atuais do crescimento da criança, de sua socialização, desenvolvimento e envolvimento com as pautas da garantia de seus direitos, com o seu protagonismo sócio político, o Programa que apresentou a criança do presente, teve como convidadas a jovem ativista e colunista da Rede Peteca Anna Luiza Calixto, ao lado da neuropsicóloga e psicopedagoga Adriana Foz.

Educamos nossos meninos e meninas em um espectro de ‘vir a ser adulto’, não raro desrespeitando seus desejos em um impulso cultural que se manifesta em jargões que acentuam a inferioridade quase institucional que grita ‘criança não tem que querer nada.

A apresentadora Andresa Boni presta seu apoio à Campanha Chega de Trabalho Infantil, ao lado da Colunista e Entrevistada Anna Luiza Calixto

A apresentadora Andresa Boni presta seu apoio à Campanha Chega de Trabalho Infantil, ao lado da Colunista e Entrevistada Anna Luiza Calixto

O futuro de uma nação que nos espera crescer para compreender o peso de nossas vozes, como se houvesse uma fada dos dezoito anos, para visitar a cada um na meia noite do seu aniversário – em que alcançamos a maioridade – e nos transformar em seres completos, os tais adultos. Eu não sei vocês, mas passei toda a minha adolescência esperando a tal fada e ela não veio! Isto porque a construção de um indivíduo responsável e consciente de sua atuação social se dá no fomento contínuo do pensamento crítico – e não ao se tolher a criança de sua espontaneidade e a colocando em situação vexatória em decorrência de suas peculiaridades.

Estes traços adultocêntricos são sequelas do período ‘menorista’ brasileiro.” – conta Anna, vestida com a estampa de sua Coluna Quem tem boca vai à luta, sobre a qual também falou durante a Entrevista, como exemplo de estímulo saudável e responsável à inclusão de jovens na discussão sobre os seus direitos.

Anna finalizou sua participação no Programa deixando um recado para as crianças que as assistiam, dando destaque ao momento particularmente delicado na esfera política brasileira, em um capítulo que ameaça os direitos infantojuvenis:

O ECA não está morto e não vamos deixar que ele morra. Vamos permanece-lo vivo, porque o sangue que corre em nossas veias é de luta. O ECA não vai pra latrina, mas sim para a pauta, as discussões, as Escolas e, principalmente, para a nossa vivência enquanto crianças e adolescentes!” – bradou a escritora e palestrante.

Encerrando a Série, em pleno Dia das Crianças, Boni conversou com diversas crianças sobre sua perspectiva sobre o futuro e suas expectativas – todas, é claro, marcadas pelo sonho de crescer em um Brasil que acolha, proteja e respeite as necessidades de todos os cidadãos, independentemente de sua origem, etnia, crença, condição social e gênero. Ainda, a edição contou com a participação de uma plateia de quinze crianças indígenas, negras e imigrantes, membros de Escolas Públicas e Particulares, que interagiram durante o Programa através do apoio da repórter Tatiana Bertoni, além da contribuição do educador e escritor de literatura infantil, Ilan Brenman.

Buscando visibilizar o contraste temporal na linha do tempo das crianças brasileiras, a Série O Tempo das Crianças acentuou o quão frequentes têm se tornado temas como educação, família, meio ambiente, política e igualdade étnica e de gênero na vida dos meninos e meninas, movimento herdeiro da inclusão dos mesmos brasileirinhos nas discussões, de sua concepção enquanto sujeitos de direitos e do processo de maturação social em cima de suas características de transição.

Pró ativa, questionadora e atenta a sua realidade, a criança de hoje carece – em uma perspectiva um tanto quanto crítica – de um fluxo educacional que a possibilite também ser mais perceptível ao outro. As crianças nunca estiveram tão presentes e nunca foram tão o presente. Elas não querem esperar crescer para serem o que quiserem, elas já o podem ser.” – aponta a Colunista Anna Luiza, destacando a necessidade de desconstrução da perspectiva totalizante e estereotipada que assenta o perfil da criançada.

Zelar pelo cumprimento da proteção aos direitos das crianças deixa de ser apenas uma responsabilidade e se torna um desafio. Neste processo, a participação efetiva dos meninos e meninas nunca foi tão necessária e nunca fez tanto sentido. As crianças e os adolescentes são a peça que falta no quebra cabeça – um mosaico difuso – da rede protetiva. E, quando os encaixarmos (sem moldá-los ao nosso formato prosaico ou aparar suas arestas) teremos os filhos que não fogem à luta. Mas, para tanto, é necessário que nos tornemos a Mãe gentil, a pátria amada; um sonho intenso; um raio vívido de amor e de esperança.

Barcarena, a capital nacional do sistema de garantia de direitos da criança