publicado dia 20/02/2018

O bode de São Lourenço e os mitos do trabalho infantil

por Antonio de Oliveira Lima

Na semana do carnaval, a imagem de um bode da cidade de São Lourenço (MG) circulou nas redes sociais e causou muita polêmica.  O G1 publicou matéria sobre esse fato e vários outros veículos de comunicação repercutiram a notícia. Na foto, o bode aparece ajoelhado, comendo a grama de uma praça no centro da cidade. Até a publicação deste artigo, a  postagem original já tinha sido compartilhada por quase 18 mil pessoas.

bode ajoelhado para alcançar grama de praça e se alimentar

Imagem publicada originalmente no Facebook

A imagem original foi publicada no perfil do facebook da mineira Fernanda Brito, que mora no Rio de Janeiro (RJ), mas sempre visita São Lourenço. Na mensagem, a turista questiona a falta de fiscalização e fala em “crueldade” por parte dos turistas que decidem fazer o passeio. Nos comentários, todos são contra o uso dos animais em charretes.

Infelizmente ainda é comum a utilização de pequenos animais para passeios com crianças e nem todos que exploram esse tipo de negócio se preocupam com o bem-estar dos animais. Esse problema acontece em várias cidades do país. Quando uma praça passa a ser frequentada por muitas famílias com crianças, sempre aparece alguém com esses pequenos animais para oferecer passeios. Também é comum essa exploração nas regiões de maior concentração de turistas. Felizmente as pessoas estão começando a reagir, e com o tempo isso tende a mudar.

Mas o que o bode de São Lourenço tem a ver com os mitos do  trabalho infantil? Bom, agora começa o lado mais triste dessa história.  Geralmente esse tipo de atividade não explora apenas os animais, mas também, e principalmente, crianças e adolescentes. Em São Lourenço não é diferente.

Conforme se percebe na foto, ao lado do bode tem uma criança e um adolescente trabalhando e ninguém deu atenção para eles. A revolta acontece apenas em defesa do animal.

Mas por que será que as pessoas conseguem se revoltar (e com razão) quando vêm a exploração dos animais e não se revoltam com a exploração de crianças e adolescentes. Por que se consegue ver pequenos animais e os pequenos seres humanos permanecem invisíveis, mesmo quando estão ao lado daqueles?

Trabalho infantil nos faróis de São Paulo. Crédito: Tiago Queiroz

Trabalho infantil nos faróis de São Paulo. Crédito: Tiago Queiroz

Em 1.700 comentários da postagem acima noticiada não se percebe revolta pelo fato de haver crianças sendo exploradas. Ao contrário: na postagem, a turista chega a reclamar do garoto que, segundo ela “estava cobrando pelo passeio, viu e não fez nada”.

Muito já se falou sobre a invisibilidade do trabalho infantil, mas nunca é demais retomar esse debate, pois o problema continua, como prova esse caso do bode de São Lourenço.

Lembro-me de outro caso, ocorrido em agosto de 2012, no município de Arapiraca (AL), quando uma adolescente foi apreendida,  acusada de roubar R$ 4 mil da patroa, no primeiro dia de trabalho.

A matéria teve grande repercussão na mídia local, porém todas as abordagens se referiam ao ato infracional praticado pela adolescente. Nada foi debatido a respeito do trabalho infantil, embora se tratasse de uma adolescente de 14 anos, submetida ao trabalho doméstico, uma das piores formas de trabalho infantil.

Para muitas pessoas o trabalho infantil não é um problema social, mas apenas um fator cultural ou familiar, que não traz nenhum prejuízo à criança. Costumam invocar frases como “trabalhar infantil não mata ninguém, eu trabalhei e não morri”.

Outros vão além: não apenas negam os prejuízos do trabalho infantil, mas chegam a qualificá-los como algo benéfico para a criança. Geralmente não defendem isso para seus filhos, mas apenas as “crianças pobres”. Costumam usar frases do tipo “é bom para a formação do caráter”, “é melhor ele trabalhar e ajudar no sustenta da família, do que toda a família passar por necessidade”.

Sabemos que existem, também, pessoas que conseguem ver o trabalho infantil como um problema social, porém de pequena relevância. É como se fosse uma violação de direito de pequeno potencial ofensivo, que não merecesse ser objeto de preocupação por parte da sociedade e do poder público. Argumentam que existem problemas mais graves que devem ser priorizados. Costumam justificar seu pensamento em frases como “melhor trabalhar do que roubar”, “melhor do que ficar nas ruas expostas à violência”.  São pessoas que justificam um problema com outro.

Existem, ainda, os que consideram o trabalho infantil um problema grave, porém não visualizam uma solução possível. Uns acreditam que é uma questão cultural, impossível de mudança. Outros invocam a falta ou a insuficiência das políticas públicas.

Nas comunidades rurais, onde as políticas públicas não chegam, onde a escola é distante, essa justificativa se soma à necessidade da família de ter a ajuda das crianças na roça, principalmente nos tempos de plantio e colheita. Mas essa explicação também acontece nas grandes cidades, principalmente nos bairros periféricos, onde a maioria da população vive em situação de vulnerabilidade e risco social e apresenta altos índices de violação de direitos.

Essas pessoas reconhecem o problema nas falas, mas o negam nas atitudes. Não denunciam. Não exigem políticas públicas. Acham que não adianta. Negam o problema pelo fato de não ter ou não acreditar na solução. Prevalece o discurso da conformação com a realidade.

Finalmente, e felizmente, existem pessoas que acreditam e lutam pela mudança da cultura adultocêntrica, o que nos traz a esperança de que um dia conseguiremos efetivar os direitos da criança e do adolescente, garantindo-lhes proteção integral, com prioridade absoluta.

Trago aqui dois exemplos que alimentam essa esperança. Enquanto escrevia este artigo, recebi duas mensagens animadoras por WhatsApp: a primeira veio da Miriam Bandeira, mineira que mora em Fortaleza. Ela está indignada com a situação de crianças e adolescentes exploradas na orla da capital cearense. Denunciou o caso ao Conselho Tutelar e disse que persistirá fazendo a sua parte.  Tem acompanhado e apoiado as ações do Programa de Educação contra a Exploração do Trabalho da Criança e do Adolescente (Peteca), desde  setembro de 2017, quando sua sobrinha, Lara Sardenberg, veio de Vila Velha (ES) para participar do I Encontro Nacional de Adolescentes pela Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (Enapeti), realizado pelo programa.

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A segunda notícia animadora veio do interior do Pará. O coordenador do Projeto MPT na Escola (Peteca) no município de  Juruti (PA), professor Janilson Melo, promoveu a capacitação dos educadores de Óbidos (PA) na semana passada, logo após o carnaval. A expansão do projeto para o município vizinho se deu por ação voluntária do professor Janilson e das professoras Jacira e Rosália, do município de Óbidos, com o apoio das respectivas secretarias de educação.

Não precisamos ir até a Óbidos-PA, nem o município precisou ir até o MPT para a projeto chegar lá. Tudo aconteceu a partir da sensibilização e comprometimento dos profissionais envolvidos.

Quando iniciamos o Peteca (Projeto do MPT-CE, no qual a Rede Peteca se inspira), em outubro de 2008, tínhamos um propósito, que vem se concretizando a cada dia: engajar cada vez mais pessoas na luta pela efetivação dos direitos da criança e do adolescente e na prevenção e combate à violação desses direitos, principalmente o trabalho infantil. Ao longo desses dez anos de execução do programa temos recebido muitos sinais de mudança, como esses dois acima relatados.

Continuaremos na luta. Sabemos que não será fácil e que ainda enfrentaremos muitos obstáculos, mas seguiremos resistindo, remando contra a maré, com determinação e persistência, até que os ventos soprem a favor da infância e que a maré mude a direção. Somente assim chegaremos ao dia em que as pessoas ficarão indignadas não apenas com o sofrimento dos animais, mas também, e principalmente, com a exploração de crianças e adolescentes.

 

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