publicado dia 24/01/2020

“De que vale consolar um pobre, se tu fazes outros cem?”

por Anna Luiza Calixto

Crédito: Tiago Queiroz

O Sermão de São Gregório de Nissa na prática da falsa solidariedade através da esmola e do assistencialismo

Para principiar mais um ano da Coluna Quem tem boca vai à luta, trago à baila as aspas publicadas ainda no primeiro capítulo de uma das obras mais conceituadas na literatura de Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido. Freire publica trecho bastante emblemático do Sermão contra o usuário de São Gregório de Nissa, padre capadócio e teólogo renomado. O fascículo, escrito no ano de 330 d.C, poderia ser contemporâneo ao passo que reflete sobre a dinâmica social de assistencialismo e pretensiosa generosidade dos exploradores, através da ilustração da esmola do opressor, oferecida em ato de contemplação e gratificação pessoal, muito mais do que de auxílio fidedigno ao outro, o oprimido.

“Talvez dês esmolas. Mas, de onde as tiras, senão de tuas rapinas cruéis, do sofrimento, das lágrimas, dos suspiros? Se o pobre soubesse de onde vem o teu óbulo, ele o recusaria porque teria a impressão de morder a carne de seus irmãos e de sugar o sangue de seu próximo. Ele te diria estas palavras corajosas: não sacies a minha sede com as lágrimas de meus irmãos. Não dês ao pobre o pão endurecido com os soluços de meus companheiros de miséria. Devolve a teu semelhante aquilo que reclamaste e eu te serei muito grato. De que vale consolar um pobre, se tu fazes outros cem?”

O propósito da escolha desta temática para um mês como janeiro se dá em razão do panorama que encontramos após as festividades de encerramento do ano e o derradeiro espírito natalino. Em síntese, subsequentemente à entrega de cestas básicas; apadrinhamento de crianças em situação de vulnerabilidade social durante o feriado; compra de presentes para populações marginalizadas e até mesmo ceias coletivas, tudo retorna a seu status quo e as violências institucionais voltam a soar naturais em um estado apocalíptico de direitos.

O cenário se repete, evidentemente que com menor intensidade, durante o calendário usual e pode ser observado, por exemplo, na compra de produtos comercializados por crianças e adolescentes nas ruas de nossas cidades. Doces, buquês de flores; serviço de limpeza de veículos (os flanelinhas); óculos plásticos e até mesmo serpentinas no Carnaval. Ainda de maneira mais acentuada neste período de férias, meninos e meninas oferecem picolés nas praias e trabalham como vigias de veículos nas zonas urbanas e turísticas.

A compra de produtos ou serviços prestados por crianças e adolescentes traduz, em termos reais, autocomplacência. Compreendendo a lógica de que a esmola é paliativa e sempre será insuficiente, perpetuando o ciclo da miséria e fomentando a prática do trabalho infantil, a persistência desta prática materializa o que São Gregório condena: se por trezentos e sessenta dias exploramos e oprimimos parcela tão expressiva de nossa população, minhas esmolas não são, portanto, ferramenta para que eu me perdoe e enxergue em minha postura qualquer humanidade?

A espetacularização da solidariedade se torna frequente nos atos da chamada caridade, em que vastas doações são entregues – contanto que o benevolente seja assistido por câmeras. Ainda no rastro clérigo, aqui cito Jesus Cristo quando propala que diante de esmolas, doações ou quaisquer ações de suposta solidariedade, não toque trombetas diante de si, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. A caridade executada somente sob holofotes revela a verdadeira fome – a de aplausos.

Ao passo que consumimos desenfreadamente produtos fabricados pela indústria escravocrata, que não nos preocupamos com a cadeia produtiva exploratória do que vestimos e comemos, que ofertamos dinheiro “para ajudar” ao invés da denúncia, verdadeiro ato de misericórdia, e até mesmo empregamos criminalmente meninos e meninas para carregar nossas compras, lavar nossos carros e limpar nossas casas, a compra de uma cesta básica torna-se ínfima e vexatória. É saciar a sede de um pobre com as lágrimas de seu próximo.

Preocupar-se com a infância e a adolescência brasileira de maneira sólida e pró ativa não traduz comportamentos que assopram a ferida e desejam melhoras, mas no investimento na cura e recuperação daquele que foi prejudicado. Não obstante, há o contraponto bastante comum de que é melhor fazer pouco do que não fazer nada. Partamos aqui do pressuposto estabelecido constitucionalmente de que não fazer nada não é uma opção ao passo que todos somos responsáveis pelas mazelas sociais que põem por terra a doutrina da proteção integral, que substitui a doutrina da situação irregular em razão da urgência de olhar para todos os meninos e meninas brasileiros em atos de prevenção e combate às violências, não apenas para aqueles e aquelas que já são encontrados no gargalo das violações de direitos que o ECA condena.

Para mitigar a fome, a miséria, a violência e a opressão que sobressaltam aqueles que ofertam esmolas, faz-se necessária a denúncia – esta que não vem para punir o violentado, mas para construir intersetorialmente caminhos que rompam o ciclo que o viola. A busca pelo fomento social da cultura da denúncia é árdua, uma vez que a mesma não é alvo de tantos aplausos quanto a fotografada entrega de cestas básicas em uma comunidade carente.

Quantos daqueles que, durante as celebrações cristãs, compadecem-se dos órfãos, pobres e famintos teriam condições para, no decorrer dos outros trezentos e sessenta dias, por exemplo, contratar líderes de famílias desassistidas pelo poder público para, assim, suprir a lacuna que predomina no assistencialismo despreocupado? Ou para assegurar a qualificação de uma mulher solo que educa e sustenta quatro crianças enfrentando enormes dificuldades? Ou para, através de intervenções políticas, instrumentalizar os equipamentos públicos de saúde da periferia?

A denúncia abre caminhos que um pedaço de pão não pode percorrer. O controle social vai a distâncias que uma cesta básica desconhece. A participação ativa da comunidade no combate às violências mobiliza espaços em que uma fotografia ou aplausos não serão ouvidos. A mudança não soa trombetas para a hipocrisia e a omissão.

A proposta desta Coluna não é pedir para que se faça mais, mas para que se faça diferente. Devolve a teu semelhante aquilo que reclamaste e eu te serei muito grato. A dívida histórica que o Brasil carrega para com as populações mais vulneráveis é indiscutível. Mas o caminho que devemos percorrer para saciar nossa fome de transformação… Ah, sobre este há muito o que se discutir.

De que vale consolar um pobre se tu fazes outros cem? De que vale apresentar esmolas àqueles de que roubamos tudo? De que vale um único pão no país que passa fome? De que valem os holofotes quando somos escuridão? A pretensa solidariedade mente e, o que é ainda mais severo, não revela a parte da história que aponta nossa culpa. Talvez dês esmolas. Mas elas serão o bastante para pagar por nossos pecados?