publicado dia 16/08/2019

Acreditem nas crianças: youtuber Jout Jout expõe retrato alarmante da violência sexual infantil no Brasil

por Anna Luiza Calixto

Prioridade absoluta, mobilização social, sintomas do abuso e rede de proteção foram alguns dos temas abordados no forte relato que foi publicado no último dia 30

“Eu queria muito que este vídeo fosse tão desnecessário que ele nunca tivesse que ser feito. Mas não é que ele é necessário, ele é urgente.” – aponta a youtuber  Jout Jout em frente à câmera em seu canal, no último dia 30. Esse foi o pontapé inicial na discussão sobre as proporções da violência sexual no Brasil, como fruto de um histórico de exploração e abuso desde os nossos tempos de colônia – majoritariamente, contra meninas e mulheres.

Poucas horas após a publicação do vídeo, havia uma vastidão de comentários com fortes relatos de violência física, psicológica e sexual, bem como manifestações de profissionais de diferentes áreas se prontificando a serem úteis de acordo com as especialidades: psicólogos para atendimento gratuito a vítimas das violações; educadores sociais para intervenções de sensibilização; publicitários para o desenvolvimento de campanhas para as entidades de acolhimento institucional e fortalecimento de vínculos.

O conteúdo despertou, sem sombra de dúvidas, dois tipos de gatilhos nos usuários que acessaram o vídeo na plataforma: o reconhecimento de situações de abuso que marcaram suas infâncias, mesmo com a identificação tardia da violência, e o acordar de uma necessidade de fazer algo a respeito, pela urgência de mobilização.

Com um olhar bastante amplo e pautado na sua vivência com profissionais da rede de proteção manauara (AM), Jout Jout sai da discussão comum. Ela parte das questões básicas de conceito e como tratar a vítima para um espectro muito mais delicado do enfrentamento à violência sexual infantil.

Reflexão

A youtuber reflete questões como os sintomas da violência sexual, a necessidade de credibilizar o discurso infantil, a importância da educação sexual nas escolas, as estatísticas evasivas sobre o quadro, a relação de provedor que muitos agressores têm com o lar da vítima, a culpabilização da criança e do adolescente, entre outras.

Mesmo com a complexidade da pauta, ela consegue tornar o debate fluido e causar inquietações não necessárias mas, como ela pontua, urgentes. “Não vai ter um dia bom pra falarmos em massa sobre isso. Então que tal a gente falar logo agora?” – convida Jout Jout.

Em meio à reflexão, Jout Jout fala sobre alguns mitos em relação aos abusos. Muitas pessoas pensam que só ocorre entre crianças e adolescentes de baixa renda, com consentimento da vítima e por pessoas desconhecidas. O que acontece na verdade é que muitas famílias ricas utilizam seus recursos para encobrir os casos que acontecem, na esmagadora maioria das vezes, dentro de casa com familiares ou com amigos próximos.

Ainda coloca: “Se uma criança é abusada dos dois aos onze anos de idade, aquilo é tudo o que ela conhece. Provavelmente aos onze ela vai começar a entender que é errado e que não devia acontecer, mas às vezes aquele abuso é o que ela sempre entendeu por carinho, como um segredo que ela pode compartilhar com um adulto – e crianças tendem a valorizar isso”.

Jout Jout apresenta também o caráter sintomático da vivência da violência por uma criança, principalmente a sexual. Por mais que a vítima tenha sido cruelmente ameaçada e não vá se abrir sobre o assunto, sempre há sinais.

“Apesar daquela criança não correr, não gritar e não explicitar que aquilo está acontecendo, ela sempre mostra uns sinais e a gente tem de ser esperto pra pegar. Porque a criança muda o comportamento: se ela é muito animada, às vezes ela fica mais quietinha; ou ela era quietinha e de repente ficou muito agitada…”

Muitas pessoas que são convidadas pela primeira vez para discutir estratégias de combate à violência sexual infantil no Brasil, clamam por prisão, castração química, pena de morte e todo tipo de penalidade mais agressiva.

Em contrapartida, Jout Jout também publiciza diversos links e matérias, compondo um dossiê acerca da ineficácia do nosso sistema penal, bem como os resultados muito questionáveis da castração química humana – proibida constitucionalmente. Será que prender está adiantando? Temos uma população carcerária que vem aumentando a níveis absurdos, mas a queda proporcional esperada para os índices de violência não está acontecendo.

Discurso de ódio

Júlia provoca a reflexão de que o ódio popular pelos estupradores não gera resultados práticos reversivos à violência. É preciso fazer mais. Em Manaus, ela conheceu psicólogas que testam o método de promover, nas penitenciárias, rodas de conversa com os autores de violência contra crianças e adolescentes, o que – por mais que soe absurdo – tem rendido resultados, por meio de uma abordagem quase pedagógica sobre o espetro da construção do desejo sexual e violência contra crianças e adolescentes.

Por mais que toda a sociedade enxergue esses homens como monstros, não é assim que eles se reconhecem, por não entenderem o que eles fizeram como imoral dentro dos seus padrões.

A expressiva maioria da rede de proteção opta por realizar um trabalho com as vítimas, o que é muito importante, mas ignorar a existência do violador neste ciclo apenas perpetua a violência e torna o trabalho do sistema de garantia de direitos um ciclo de recuperar a vítima e acolher novas crianças violentadas por abusadores que não deixarão de repetir seus atos por terem sido punidos uma, duas, três ou dezenas de vezes. E os nossos índices de reincidência prisional são capazes de comprovar essa ideia.

Ressaltando o que muito vem sendo discutindo pela grande mídia, canais de comunicação e população, a youtuber aponta a emergência de levar educação sexual preventiva e esclarecedora para meninos e meninas brasileiros. A educação que parte desde os lares até as salas de aula.

É preciso desconstruir expressões como “prendam suas cabritas, porque o meu bode está solto”, em um mondo que permite que “bodes” e “cabritas” coabitem em paz. Também é necessário expandir o conceito nas salas de aula, compreendendo que precisamos de uma intervenção preventiva à violência (o que em nada se relaciona com ensinar crianças “a serem homossexuais” ou a praticar sexo).

A ideia é expor que há limites em seus corpos, que devem ser tratados com respeito; que criança não namora nem de brincadeira e que, principalmente, não se deve sentir culpa ou medo no momento de denunciar e de dizer não.

Jout Jout salienta que há dois núcleos de convivência principais na vida de uma criança: casa e escola. Se a violência acontece dentro da sua casa, faz-se necessário enfatizar a importância da escola no olhar atento contra qualquer tipo de violação de direitos.

Culpabilização da vítima

Observa-se também que, lamentavelmente, nem crianças e adolescentes estão imunes a serem culpados pela violência que sofreram, sob um pretexto de provocação e consentimento absolutamente incoerentes. Jout Jout traz o relato de uma médica especializada em violência sexual contra crianças e adolescentes, cuja paciente mais jovem a ser atendido tinha quatro meses de idade.

Cabe, portanto, o questionamento: que tipo de desculpa será possível utilizar neste caso?Era a roupa que esta criança estava usando ou ela provocou e pediu por aquilo? O discurso de ódio é inaceitável e incabível quanto a vítimas de qualquer faixa etária. A mesma médica relata que muitos dos casos de abuso sexual durante a adolescência não são registrados como estupro de vulnerável, mas como gravidez precoce, o que dificulta a dimensão real da violência.

Após fortalecer a discussão sobre a recuperação da vítima e a desconstrução do agressor, a youtuber amplia o debate sobre a rede de proteção. Por mais que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a Constituição Brasileira tragam conceitos como a prioridade absoluta e a proteção integral, a prática é muito mais dolorosa e difícil.

Por isso, temos uma rede bastante adoecida e desgastada por um trabalho diário e constante de lidar com a violência de forma defensiva e preventiva, bem como reverter a erotização precoce de muitas crianças cujas sexualidades foram violadas. Todos os seres humanos têm sexualidade desde o nascimento e é um processo natural, diferente da sexualização.

A rede de proteção não raro precisa lidar com mecanismos que tantas vezes expõem a vítima e protegem o abusador por meio de muitos entraves burocráticos que levam a resolução dos casos a demorar muito. Por isso a melhor ajuda é investir no sistema de garantia de direitos de crianças e adolescentes. É hora de ficar atento. Toda criança é nossa criança.

Precisamos de um empenho grandioso, um time de pessoas de todo o território brasileiro para repartir o peso do carrinho de tijolos da construção de um Brasil sem violência contra crianças e adolescentes – e podemos adiantar que ele é muito pesado.

Mobilize suas redes sociais e independentemente de qual seja a sua formação profissional, procure entidades e ofereça a sua ajuda, o seu tempo, os seus ouvidos e a sua voz. Leia e brinque com aquelas crianças, dirija aos finais de semana para ajudar nas demandas daquela instituição, doe para os órgãos que estão se mobilizando por estes meninos e meninas, acompanhe de perto os Conselhos de Participação da sua cidade, audiências públicas e o Poder Legislativo, tomando nota do que realmente está sendo deliberado e aprovado na criação de projetos e desenvolvimento de políticas públicas na luta por direitos elementares.

“Este problema não vai ser resolvido com algumas pessoas maravilhosas empenhadas para resolver o problema. A gente vai ter que engajar o Brasil todo. Será que a gente consegue engajar o Brasil todo nisto? Porque a gente consegue engajar quase todo o Brasil em Copa, por exemplo, em Ano Novo, em Carnaval… Será que a gente não consegue engajar quase todo o país pra impedir que crianças sejam estupradas? Eu acho que sim.”

Nós também achamos, Jout Jout. E passamos adiante a ideia posta pela youtuber: se identifique em suas redes sociais através da hashtag #sourededeprotecao + o nome da sua cidade. Se lembrar é combater, esquecer é permitir. Somos a rede de proteção brasileira, mas de nada irão adiantar nossas hashtags se esta rede estiver furada.

Por fim (ou melhor, para começar) fale a respeito. Leve o debate e sensibilize todos ao seu redor. Em especial, fale e acredite, escute as crianças. Denuncie. Quanto antes começa a nossa luta, antes acaba o abuso; antes pomos um fim à violência.