publicado dia 03/06/2020

Opinião: A educação contra a barbárie

por Anna Luiza Calixto

Resumo: (ADORNO, Theodor W. Educação e Emancipação, capítulo sete, p. 155-168. 4a ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995)

Rio de Janeiro - Professores e alunos da rede municipal de ensino participam de ato pela paz no Museu de Arte do Rio, na zona portuária da capital fluminense. (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)

Debruçar-se no processo transversal que versa entre a sociedade e o Estado para a desbarbarização dos sujeitos políticos traduz a intenção de Adorno quando aponta esta pauta enquanto a questão mais urgente da educação contemporânea.

O filósofo alemão, em texto de caráter dialógico com o antropólogo americano Ernest Becker, pauta o impedimento da barbárie como a ordem prioritária para todo o pensamento educacional da primeira infância à especialização profissional, tendo em atenção o prisma de uma civilização que vive o seu apogeu tecnológico ao passo que convive com o que Adorno nomeia como um impulso de destruição.

O impulso de destruição é relacionado pelo autor à ideia de cultura de ódio – em seu tecido social primário, abrigando em seu seio um atraso civilizatório disforme que alimenta a aversão primitiva ao conteúdo básico da civilidade: a cidadania.

Para que seja consumada a sobrevivência da humanidade, a superação da barbárie é decisiva. Conforme o próprio Adorno o coloca, este pensamento carregado de obviedade revela mais do que muitas potências representadas pela máquina estatal local.

Elucidar a barbárie perpassa o caráter psicanalítico da discussão bem como o histórico social e o político, concebendo que, para muito além da moral e dos padrões comportamentais dos indivíduos, há momentos específicos com maior potencial de produção da barbárie, tais como crises econômicas e revoluções.

Pautando o caso alemão como o eixo central da discussão acerca da barbárie em cadeia vertiginosa, em decorrência de Auschwitz como o que Adorno nomeia a mais horrível explosão de barbárie de todos os tempos, ambos os autores inferem que o fato de tal debate ocupar a consciência coletiva já traduz importante mudança na estrutura social.

“Como eu poderia amar o bem se não odiasse o mal?” – as aspas atribuídas à August Strindberg, dramaturgo sueco, são empregadas no texto por Becker em meio à reflexão de que o combate à barbárie não pode se dar no plano hiperbólico de repressão a quaisquer moldes de agressão ou pensamento contrário à norma, pois não se trata do que ele nomeia como elogio à moderação pura.

Ambos compreendem que não há qualquer indivíduo plenamente exímio da barbárie, visto que todos estão inseridos no dilema da culpabilidade do sistema e tudo passa a depender da reversão do curso de tais instintos da desgraça para o oposto da barbárie: a civilidade e a cidadania.

Puerilizar o conceito de barbárie é uma prática profundamente sintomática de uma política despreocupada com o avanço da reversão da cultura do ódio, pautando os indivíduos sociais que não se converteram em obedientes instrumentos da ordem vigente como propriamente bárbaros, ao passo que o poder em sua configuração formal veste a roupagem da essência mutilada das pessoas.

Nesta seara da discussão acerca dos pilares que violam a civilidade, quem e o quê definem a barbárie? Partindo da síntese teórica elucidada pelos autores, a barbárie habita os espaços em que se dá a regressão à violência física sem que haja vínculo transparente com os objetivos racionais da sociedade.  A exemplo de manifestações estudantis reprimidas violentamente pelas forças policiais, temos delineado evidentemente quem performa aqui no papel de bárbaro e no papel de válida desobediência civil, sem as características viscerais com as quais o estereótipo de barbárie ocupa o imaginário popular.

Ultimar a barbárie utilizando como ferramenta a política educacional não traduz a problemática e toda a sua cadeia de óbices. Faz-se necessário compreender a fundo suas estruturas fundamentais, através das quais se perpetua socialmente, a exemplo pertinentemente aplicável da competitividade como viés estimulado na educação de crianças e adolescentes, o que – se não for, como Adorno e Becker apontam, metodicamente balizado – pode provocar o curso da educação a serviço do caos e, analogamente, da barbárie propriamente mencionada. A competição no sistema educacional é, circula Becker, um termômetro para o aumento da eficiência.

Mediante a pandemia da Covid-19 e seu necessário enfrentamento através de medidas de caráter social e sanitário, tal como o distanciamento entre as pessoas, a educação também perpassa um processo de reinvenção. Não raro, as redes educacionais mantém sua prioridade conteudista ainda que em períodos tão duros que, em um país dessemelhante como o nosso, acentuam as desigualdades e as violações de direitos.

O momento requer coragem para construir um novo desenho de educação que busque amenizar as desigualdades e promover vivências, ao passo que atua ao lado da rede de proteção para assegurar a proteção aos direitos elementares das crianças e adolescentes do território. Quem tem fome não aprende. O rendimento não pode ter mais valor do que a integração da escola à comunidade local para compreender os espectros mais perversos da miséria e da violência. Se a educação está à distância, como fazer com que o direitos estejam por perto?

Pensar educação sem humanização é trabalhar a serviço da barbárie. A pandemia do coronavírus desvelou os aspectos mais cruéis da competitividade, do necroliberalismo e da coisificação social ao patamar de optar pelo avanço econômico à preservação da vida. A educação é ferramenta imprescindível para transmover este fluxo cultural perverso no percurso histórico, considerando e adaptando-se às adversidades e seus moldes contextuais. Construir e formar cidadãos e não notas e diplomas. Pensar a educação como democracia, liberdade e libertação das violências. Não há nada mais humano que isto. A educação como o próprio pensar.

Pormenorizando a barbárie e o dilema abarcado por sua dissolução, Adorno é proficuamente didático ao sinalizar como uma das tarefas indispensáveis para que tal processo estudado seja exitoso, o desacostumar as pessoas de se darem cotoveladas, o que pode ser reaplicado nos moldes da meritocracia, em que tais cotoveladas são validadas e perdoadas sobre o pano de fundo do que o autor nomeia como o saudável desejo pelo sucesso.

Partindo de tais pressupostos, tem-se aqui o fio condutor ideal para a discussão do quão problemática pode tornar-se a educação pautada na lógica perversa da competitividade em nome do sucesso – ou de absolutamente todas as relações sociais assentadas na âncora do sucesso – pois a justificativa majoritariamente utilizada para validar tal modelo e prática educacional é a de que a sociedade funciona desta maneira e esta instituição pretende preparar seus membros para a vida lá fora, o que é não apenas perturbador, mas sintoma de uma vida lá fora adoecida.

Plausível e necessária, a discussão sobre o tecido social violento perpassa este olhar para a coletividade que compete por um assento ao sol e, fracassando neste processo infindo e extenuante que só faz alimentar a engrenagem primária do capitalismo e produzir lucro para uma parcela ínfima da população planetária, culmina suas decepções em violência, traduzida em práticas bárbaras que, neste panorama, são fabricadas pelo sistema.

Neste ínterim, poderia ser inferido que o fito deste estudo é a conversão dos indivíduos sociais em seres passivos e inofensivos, por assim dizer domesticados, o que seria uma conclusão equivocada. Tal apatia civil constitui, por si só, uma forma de barbárie, tendo em atenção que estes cidadãos cuja essência política está adoecida são os mesmos que contemplam o horror e se omitem no momento decisivo.

Pensar a educação contra a babárie aponta-nos a dicotomia da civilidade contemporânea, em que tal responsabilidade é uma quimera que não se encerra enquanto o último adolescente do campo não se envergonhe quando, por exemplo, (…) se comporta de modo brutal com uma moça, como acentua Adorno. A vergonha sobre a rudeza presente em nossos espectros culturais é imprescindível para a desbarbarização que buscamos, para uma educação humanizadora que se manifeste desde a primeira infância no reconhecimento e rejeição de todas as formas de brutalidade, em quaisquer proporções.

Para que a sociedade renuncie à barbárie, esta também deve lançar mão da posição de autoridade – onde se toca no ponto nevrálgico de maior sensibilidade, porque deslocamos o teor da educação tão somente das crianças para seus responsáveis, produtos adoecidos do mesmo sistema bárbaro, que deverão renunciar à autoridade violenta, bem como os educadores, para dar espaço à autoridade válida no cerne da orientação do que Adorno nomeia como plantas de estufa, cultivadas para uma nova era da civilização, através da qual pode-se imunizar as crianças à brutalidade arcaica que funda sociedades e é responsável pela manutenção das estruturas de opressão perpetuadas em relações de hereditariedade viciosas, aqui rompidas.

Para pensar a educação contra a barbárie não apenas como utopia – horizonte na direção do qual deve-se caminhar – mas enquanto projeto de nação, política pública e prática cultural, é mister que as estruturas dominantes deem espaço às construções coletivas em que a brutalidade seja uma mancha no passado que nos envergonhe e a desbarbarização seja, ao passo que social e educacional, propriamente humana e presente.

Referências Bibliográficas

 (ADORNO, Theodor W. Educação e Emancipação, capítulo sete, p. 155-168. 4a ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995)