publicado dia 23/07/2020

25 de julho de 2020 – Quem se importa com a vida das mulheres negras?

por Viviana Santiago

*Por Viviana Santiago

O ano de 2020 está marcado pela Pandemia da COVID-19 e também por um dos maiores levantes sociais antirracistas já registrados na história. Em todo o mundo, protestos indignados contra o assassinato de George Floyd, devolveram pessoas às ruas e sacudiram as redes sociais. No Brasil, o assassinato de João Pedro pela polícia enquanto brincava com amigos no quintal de casa, a morte de Miguel, que despencou do 9° andar de um prédio de luxo no qual sua mãe trabalhava como doméstica após ser abandonado num elevador pela patroa da mãe, também mobilizaram a sociedade e se viu um pequeno alvoroço nas redes sociais contextualizando a questão racial.

Em cada um desses fatos acima existe um sofrimento negro ignorado, uma violência não nomeada e sistematicamente cometida: O sofrimento advindo das violências impostas às mulheres negras, que são continuamente percebidas como “corpos fortes” para o trabalho e cuja humanidade lhes é retirada a ponto de intencional ou intencionalmente não se falar em sua dor.

Na linha de frente da pandemia da COVID-19 estão as mulheres, e as mulheres negras também estão aí, trabalhadoras responsáveis pela limpeza de hospitais, de alas de UTIs, técnicas de enfermagem. Quantas você viu serem entrevistadas na TV? Seus medos, anseios, riscos de contaminação, simplesmente ignorados e, mais do que isso, deliberadamente silenciados, porque fortes que são, e sendo negras, estão no lugar que lhes é devido. As mulheres negras trabalhadoras domésticas perderam drasticamente seus rendimentos, quando simplesmente dispensadas do trabalho sem indenizações ou salários. Para elas a opção: Ficar sem rendimento ou serem dragadas para uma quarentena branca e de classe média que exige a presença da trabalhadora doméstica, mulher negra, pobre, que vai todos os dias se deslocar sob o risco de ser contaminada e com o medo de contaminar sua família. Quando discutimos isso seriamente em algum veículo de notícias?

Mesmo quando a mulher negra brasileira é submetida a um tratamento desumanizado e cruel semelhante ao qual foi submetido George Floyd, sua dor não é estampada em jornais, revistas, sites e programas de televisão. Consumida e espetacularizada, a dor da mulher negra não gera empatia ou sofrimento porque existe uma naturalização e um acoplamento do conceito de dor à ideia do corpo negro feminino.

Em situações de extrema dor e violência, a mulher negra, como sujeito desses processos, não recebe apoio, cuidado nem desperta empatia. Para que isso aconteça, repetidamente vemos a pergunta: e se fosse uma mulher branca? E se fosse a filha da mulher branca? Porque a sociedade estabeleceu que o sofrimento negro só é reconhecível e legitimado se nós imaginarmos uma pessoa branca naquele lugar.

Nesse período, levaram de nós Miguel, João Pedro, Guilherme. Depois de 30 segundos de comoção, o país volta ao consumo de reality shows e as mulheres negras seguem chorando seus filhos, netos, sobrinhos perdidos… E quem chora com cada uma dessas mulheres?

Nos dias de quarentena, ninguém se preocupa se elas, maioria das trabalhadoras informais, ainda têm o que comer, as mantém confinadas sem se preocupar com o fato de que são elas as que mais sofrem e morrem devido à violência doméstica.

No ano da pandemia, no ano de George Floyd, o mundo que redescobre o racismo, não se importa com a violência racista, classista, patriarcal que extermina as mulheres negras. Passa insensível por sua dor e as manda calar, com esfregão e vassoura na mão.

Neste 25 de julho, eu digo o nome de cada uma delas, digo o nome de Mirtes Renata, digo o nome de Dona Antônia Arcanjo da Silva, de Joyce Guedes, de Luana Barbosa, de Ágatha Félix, de Marielle Franco, de Quéli da Silva, de Lorena Vicente. Se pudesse, eu gritaria o nome de cada mulher negra que foi tirada de nós, de cada mulher negra que sofreu violência, de cada mulher negra cuja potência a sociedade racista tentou e tenta roubar. Eu grito hoje porque já fizemos silêncio demais. Pelas mulheres negras, nenhum minuto de silêncio. Todos os meus segundos serão de grito e de luta, e faço minhas as palavras das irmãs da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo: “Nem cárcere, nem tiro, nem COVID. Corpos negros vivos. Mulheres negras e indígenas, por nós, por todas nós e pelo Bem Viver”.

 

* Viviana Santiago é pedagoga, atua há mais de 14 anos no terceiro setor em organizações internacionais com foco em promoção de direitos, especialmente de crianças e adolescentes. Atualmente, é gerente de gênero e incidência política na Plan International Brasil, coordenadora executiva da Rede Meninas e Igualdade de Gênero (RMIG) e colunista no Portal Lunetas.