“A minha voz é um direito e não um privilégio”, diz jovem que leva os direitos da infância a salas de aula

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Anna Luiza Calixto Amaral, de 16 anos, jovem militante dos direitos da infância. Crédito: Arquivo Pessoal

Anna Luiza, jovem militante dos direitos da infância. Crédito: Arquivo pessoal

A estudante Anna Luiza Calixto tem apenas 16 anos, mas já fez mais do que muito adulto pela defesa dos direitos da criança no país.

Autora de quatro livros sobre o tema, Anna levou para mais de 30 escolas da região de Atibaia (interior de São Paulo) suas ideias sobre protagonismo juvenil, liberdade de expressão, acesso à educação e combate ao trabalho infantil. A fim de reunir tanta informação, ela ainda mantém um canal no YouTube sobre o tema.

Segundo a estudante, é simples garantir que os direitos assegurados pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) sejam respeitados. Basta acompanhar as ideias do seu projeto Os Cinco Passos, que consiste em: 1) pensar para dizer; 2) dizer para ser ouvido; 3) ouvir para desenvolver; 4) participar para transformar; 5) transformar para crescer.

Mesmo atuando de forma tão intensa em defesa dos direitos da criança, Anna é uma adolescente como tantas outras da sua idade. Ama ouvir músicas com os amigos, navegar nas redes sociais e se deliciar com suas paixões: livros, doces, viagens e o verão.

Conheça, agora, um pouco mais sobre Anna Luiza Calixto Amaral.

O começo


Em meados de 2008, fui convidada para participar da minha primeira Conferência Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, sem deter muitas informações sobre o Sistema de Garantia dos Direitos. E foi quando me deparei com um novo universo de possibilidades, em que a minha voz era ouvida como direito e não um privilégio, e que eu era protagonista do meu círculo social.

Desde então, esta tem sido a minha militância: convocar mais soldados para o nosso “Exército de Protagonista”, por meio dos quatro livros que já produzi, de minhas palestras e, mais recentemente, do projeto que lancei (Os Cinco Passos), direcionado para o público infantojuvenil.

Livros

Sou absolutamente apaixonada por escrita, pratico-a sempre que encontro um lápis, uma caneta ou um pedaço de tijolo na calçada, hahaha! O esforço é sempre companhia, como em qualquer outra atividade, mas vale absurdamente a pena.

Aos 10 anos escrevi, na companhia de amigos, o meu primeiro Livro (O Espelho Mágico), uma narrativa infantojuvenil fictícia, publicada pela Editora Adônis.

Após ingressar no processo de conferências, iniciei uma pesquisa na área para aprofundar o meu conhecimento a respeito e percebi que não havia obras estruturadas na rede protetiva e suas milhares ramificações tendo sido produzidas pelo próprio foco do processo, a criança e o adolescente. A partir disso, escrevi o Vivendo o Protagonismo Infantojuvenil, que explana a importância da participação político social deste público, princípio configurado no Artigo 16 do ECA e enquadrado na prioridade absoluta, preconizada na própria Constituição.

Já o terceiro, A Visão Jovem sobre a Redução da Maioridade Penal, nasceu um ano antes do furor da Proposta de Emenda à Constituição, momento em que o público afetado (adivinha?) não era convidado a participar da discussão.

E o mais recente, Você me Vê?, busca trazer uma nova perspectiva sobre o perfil do adolescente em conflito com a lei e sua história, como um todo. Ainda, em nossa sociedade, enfatiza-se a infração como foco da problemática, sem que se enxergue todo o movimento conspiratório que existe para que este seja o destino do jovem. Assim, o livro traz, de capa a capa em primeira pessoa, a história de Thiago, um adolescente que se envolve no mercado do tráfico mas, ao contrário do que os veículos midiáticos que nos rodeiam parecem acreditar, sua vida não se resume a isto.

Pesquisa

Nos dois livros de tese que escrevi, o embasamento em pesquisas e depoimentos, além da própria habilidade didática a ser desenvolvida para abordar ambos os temas, o processo foi um pouco mais trabalhoso: o que levou aproximadamente seis meses para cada um, sendo que para os outros dois, o trabalho foi mais criativo, levando cerca de três meses e contando com a minha fiel escudeira e revisora: minha mãe, da qual alugo a orelha por horas para ouvir cada capítulo, além dos depoimentos cedidos por meus parceiros de caminhada, que compõem as obras.

Passado e presente


Um dos maiores orgulhos que tenho da minha trajetória foi em 2012 ter sido a primeira criança a participar como Delegada da Conferência Nacional dos Direitos da Criança e Adolescente (do Ministério da Justiça e Cidadania) – mesmo que isso pareça um pouco contraditório para o contexto em  questão. Mas, ainda no período em que vivemos, e principalmente no cenário do Sistema de Garantia dos Direitos do Brasil, ainda encontramos falsos militantes que renunciam a participação do foco do processo.

Desde 2008, ano em que iniciei a minha trajetória na rede protetiva, observo um movimento muito mais intenso do público infantojuvenil em busca da conquista de novos espaços.

Sonhos

Depois de que me dei conta de que a construção do Brasil mais justo, de que tanto falamos, depende única e exclusivamente da nossa força de vontade, união e (acima de tudo) comprometimento, desejo que consigamos atribuir esta consciência a quem estiver ao nosso alcance.

O primeiro passo para um mundo melhor, na verdade, não é que idealizemos um lugar perfeito onde nada de ruim possa acontecer, mas sim, onde cada um de nós assuma sua responsabilidade como sujeito de direito, protagonista e construtor (tijolo por tijolo) deste mundo que queremos e, sem sombra de dúvidas, merecemos.

E este é o meu sonho, que cada um se dê conta dessa responsabilidade e assuma seu papel com orgulho e força para que assim essa transformação saia do papel e entre no nosso ciclo de participação, que funciona como uma máquina em que o desfalque de uma única peça faz muita diferença. Sonhei muito alto?