Jovens usam funk e rap para falar sobre o direito à educação

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Eu cresci no município de Poá, extremo da Zona Leste de SP. As brigas em casa eram constantes com um pai alcoólatra e dois irmãos mais velhos que se envolviam na confusão. Vivia em um ambiente marcado pelo consumo de drogas e parentes ligados ao mundo do crime. Aos 11 anos andei de skate pela primeira vez e me apaixonei. Aos 13, já estava competindo com patrocinador e meu sonho era seguir carreira na modalidade. Mas aos 15, acabei experimentando cocaína em uma festa, por influência dos amigos, e me viciei.”

A história acima, de Alex dos Santos, 30 anos, conhecido como Lemaestro, poderia ter o destino semelhante ao de muitos jovens nascidos nas regiões mais vulneráveis da cidade, onde o contato com um universo de drogas e falta de perspectivas resultam, muitas vezes, em um destino de violência e morte.

Lemaestro, hoje Diretor de Cultura no Projeto Gerando Falcões, foi nomeado em 2012, pelo Fórum Econômico Mundial, como um dos 15 jovens brasileiros que podem mudar o mundo. Suas armas? A rima. E a educação.

Lemaestro, hoje Diretor de Cultura no Projeto Gerando Falcões. Crédito: Arquivo Pessoal.

Depois de sofrer uma overdose, Lemaestro superou o susto e seguiu por um caminho diferente. O jovem procurou ajuda profissional e na casa de recuperação escreveu sua primeira letra de rap. Foi então que descobriu um novo talento além do skate – e decidiu usar a música para transformar sua comunidade.

“Resolvi trabalhar com algo voltado para os jovens, mas que estivesse ligado à música e ao esporte. Já que tive a oportunidade de estar vivo, precisava usar minha história para impedir que outras crianças e adolescentes seguissem pelo mesmo caminho”, relata Lemaestro.

Após deixar a clínica, o rapper encontrou no seu caminho o jovem empreendedor Eduardo Lyra, que havia acabado de fundar a organização Gerando Falcões. Juntos tiveram a ideia de criar um grupo de rap e funk com letras que conscientizassem os jovens sobre a importância de estudar. Nascia, ali, o projeto MC’s pela Educação, que já impactou mais de 300 mil jovens em todo o país.

Ostentando a educação

Durante uma hora de apresentação, a exaltação de artigos de luxo, bebidas ou mulheres dá lugar a temas como boas notas, comportamento e futuro profissional. A ideia, segundo Lemaestro, é ostentar a educação e os benefícios que as escolhas certas podem proporcionar.

“A primeira vez que fomos nos apresentar ficamos com medo de ser vaiados, mas fomos muito bem recebidos. Escolhemos estilos musicais bem presentes na periferia e percebemos que o jovem nos ouve de verdade” conta o rapper.

“Meu sonho é deixar um legado de transformação como profissional e ser humano para o mundo.”

Para corroborar o impacto positivo dos MC’s na comunidade, Leamestro cita ainda uma pesquisa encomendada pelo próprio grupo ao instituto de pesquisa Data Popular. Segundo o músico, 95% dos jovens que assistem as apresentações nas escolas avaliam o projeto de forma positiva e afirmam ter se conscientizado da importância de estudar.

Atualmente, o grupo faz em média de três shows por semana na comunidade, em escolas públicas e na Fundação Casa, além de realizar alguns projetos feitos por encomenda para empresas e instituições. A rotina puxada dos MC’s pela Educação, formado por três integrantes, incluem ensaios frequentes e a criação de novas músicas, que envolve um processo de pesquisa e composição dividido entre eles.

Lemaestro, hoje Diretor de Cultura no Projeto Gerando Falcões, foi nomeado em 2012, pelo Fórum Econômico Mundial, como um dos 15 jovens brasileiros que podem mudar o mundo. Suas armas? A rima. E a crença de que a educação pode transformar o mundo, como ensinou Paulo Freire (1921-1997), patrono da educação brasileira.

 

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