Jovens criam rap para mostrar os malefícios do trabalho precoce no campo

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Por Renato Lopes

Chegar até a escola não era tarefa fácil para os amigos Emanoel Rodrigo e Igor Lopes. Transitar nas estradas sem asfalto e caminhar por ruas esburacadas (cheias de lama em épocas chuvosas) faziam parte da rotina dos meninos, que sofriam com a falta de transporte escolar. Essas dificuldades afastavam muitas crianças da sala de aula, deixando-as em situação de trabalho infantil

A vontade de aprender e o incentivo dos pais para que continuassem estudando foram fundamentais na vida desses jovens naturais de Redenção, município com pouco mais de 26 mil habitantes no Ceará. Emanoel, hoje com 24 anos, e Igor, de 20, cursaram o ensino médio no mesmo programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA) da Escola Municipal de Educação Infantil e Ensino Fundamental Terto Venâncio.

Em classe, eles descobriram outros pontos em comum: a paixão pela música e a possibilidade de denunciar as mazelas sociais por meio da poesia. “Gosto de escrever letras rebeldes, reais. Quero causar indignação em quem está ouvindo”, afirma Igor.

Igor e Emerson, de Redenção (CE), ganhadores na categoria música do Prêmio MPT na Escola (Crédito: Arquivo pessoal)

Igor e Emanoel, de Redenção (CE), ganhadores na categoria música do Prêmio MPT na Escola (Crédito: Arquivo pessoal)

 

De fato, a voz dos cantores foi ouvida na comunidade, na cidade, no estado. E, agora, no país inteiro. Emanoel e Igor ganharam o primeiro lugar na categoria “Música” do Prêmio MPT na Escola 2016, iniciativa que seleciona os melhores trabalhos artísticos, culturais e literários sobre trabalho infantil realizados por alunos de escolas públicas de todo o Brasil.

Processo de composição

Orientados pela professora Lucineide da Costa Lima, os jovens, que sonham com um futuro musical, compuseram a canção “Trabalho Precoce” a partir da observação sobre a própria comunidade. Além de receber materiais, os estudantes também pesquisaram sobre as consequências e os dados gerais sobre trabalho infantil no Brasil.

“As pessoas que vivem no meio rural normalmente têm uma condição de vida mais difícil e acabam colocando os próprios filhos no trabalho. Isso afeta o desenvolvimento… A família precisa entender que a criança tem de brincar, estudar, ser criança”, afirma Igor.

A própria vitória pessoal, de terminar os estudos em uma sala de EJA (box ao final do texto), também os inspirou no processo de composição. “Quando deixa a escola, você acha que suas metas são impossíveis, mas tudo começa a fazer sentido quando você volta”, conta Emanoel, que terminou o terceiro ano do ensino médio em 2016.

“Criança não é para estar puxando uma carroça, criança não foi feita para o trabalho na roça”, alertam os garotos na canção, confirmando que o talento artístico é capaz de tornar músicos porta-vozes do combate à exploração infantil, entre outras graves violações de direitos.

De acordo com o Censo da Educação Básica do Ministério da Educação, 3,4 milhões de alunos estavam matriculados no programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA) no Brasil em 2015.

Adolescentes com mais de 15 anos ou adultos que não concluíram o ensino fundamental e médio podem se inscrever em um dos programas de EJA em todo país. Mais informações podem ser obtidas nas secretarias de educação municipais e estaduais.

Confira o passo a passo para obter a certificação na reportagem da Agência Brasil. 

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