Conheça o rapper de Pernambuco que transformou sua história em poesia

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Por Renato Lopes

“Estudar, brincar e viver.Trabalhar só quando eu crescer”

O trecho acima é de um rap do jovem compositor pernambucano Anderson da Silva Barbosa. Hoje, aos 20 anos, seu sonho é ser dono de um estúdio de música para produzir as próprias batidas com o seu grupo Realistas MC’s. Mas, nem sempre foi assim. Quando criança, Anderson foi vítima da exploração do trabalho infantil.

O rapper Anderson da Silva Barbosa, de 20 anos, transformou sua história em poesia. Crédito: Arquivo pessoal

O rapper Anderson, de 20 anos, transformou sua história em poesia. Crédito: Arquivo pessoal

Hoje, utilizando o seu talento musical e a sua vivência pessoal para combater essa grave violação de direitos no Brasil, ele acredita que para a erradicação do trabalho infantil acontecer é necessário, entre outras coisas, diminuir a desigualdade social.

Em um papo com a Rede Peteca – Chega de Trabalho Infantil, Anderson contou um pouco mais sobre a sua história e como a poesia tem feito dele um Jovem Atuante no combate à exploração de crianças. Leia a seguir:

Vítima de trabalho infantil

Eu precisei trabalhar quando eu era criança porque a minha renda familiar era muito baixa. O meu pai trabalhava como borracheiro e a minha mãe era desempregada. Eu trabalhei abrindo motor de geladeira, amassando latinhas, embalando compras no supermercado do meu bairro – Campina do Barreto, localizado em Recife (PE). O fato de o meu pai ser um ex-alcoólatra também colaborou para que eu começasse a trabalhar muito cedo. Ele tinha uma grande abstinência e acabava gastando dinheiro com bebidas alcoólicas e causando diversas confusões em casa. E como eu queria comprar brinquedos, roupas, algo que os meus pais não tinham condições de me dar, eu precisava ter o meu próprio dinheiro.

Papel como Jovem Atuante

O trabalho infantil é complexo. É uma questão que influencia a aprendizagem, o crescimento e a vivência plena da infância. Porém é um efeito dominó. Nós nunca sabemos em quais situações essas crianças se encontram. Como jovem atuante, eu tento conservar ao máximo a minha vivência. Eu tento mostrar que o trabalho infantil não é a solução. É como se eu fosse um antivírus. Vários amigos meus já seguiram os meus conselhos e não se tornaram vítimas da exploração infantil.

”Virou epidemia, se alastrou pelo Brasil
Milhares de crianças trabalhando assim, onde é que já se viu?
Perdendo a infância, reduzindo a esperança
Quando for adulto não, não tem uma boa lembrança
Acham que é normal, que já é natural
Vê um pivete vendendo caixote de maçã no sinal
Veja bem, a renda da família tá lá no chão
Então vai vender essas balas com cara de cachorro pidão
O que eles te dão?
É mais fácil arrancar o futuro de uma criança
O que faz para mudar essa situação?”
Trecho da música escrita por Anderson

Descoberta

Eu cresci no meio artístico, por meio do Programa de Desenvolvimento Associativo (PDA) aplicado pela organização Visão Mundial. Eu participei de todas as atividades do PDA, como bordado, confecção de abrigo, dança, música. O Programa fez com que eu trilhasse novos caminhos após as consequências do trabalho durante a minha infância, pois a expectativa de vida no meu bairro era muito baixa. Você poderia estudar muito, ou ser um ladrão, um traficante.

Música

Eu tenho uma música que fala especificamente de trabalho infantil. Tudo o que eu já passei, as consequências. A letra da aborda vários pontos. Eu passei aproximadamente um mês e meio a escrevendo, e acabei me envolvendo musicalmente com a temática. A ideia surgiu durante uma discussão em sala de aula sobre o trabalho infantil com o professor Thiago Silva.