publicado dia 06/11/2017

Em oficina de quadrinhos, alunos debatem o trabalho infantil em São Paulo

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Quem visita a EMEF Almirante Ary Parreiras, localizada na comunidade Vila Babilônia, bem próxima ao Aeroporto de Congonhas (SP), nota que o incentivo ao debate é prática comum. Basta reparar nas pequenas exposições de arte nas paredes dos três andares do prédio.

Crédito: Ana Luísa Vieira

São Paulo lidera o ranking de trabalho infantil no Brasil. Há 405.640 mil crianças e adolescentes, entre 5 e 17 anos, em situação de trabalho precoce no Estado. Minas Gerais, Bahia e Pará vêm na sequência Confira as informações no Mapa Interativo do Trabalho Infantil no Brasil.

No térreo, há o “Laboratório de Danças-Desenho”, feito pela turma do primeiro ano. No primeiro andar, cartazes compõem a mostra “Mulheres”, com releituras de desenhos da artista mexicana Frida Kahlo (1907 – 1954) e retratos do corpo feminino. Ao lado da sala de ciências, no segundo piso, duas paredes trazem o estudo da obra “Retirantes” (1944), de Cândido Portinari (1903-1962), até hoje um dos maiores símbolos da desigualdade social do país.

Perto dali, ao lado de desenhos que reproduzem o sofrimento e a dor de quem pouco ou quase nada têm, foi realizada, nos dias 31 de outubro e 1º de novembro, a terceira oficina do Projeto Pedra, Papel e Tesoura (PPT) – parceria do Canal Futura com a Associação Cidade Escola Aprendiz, que desenvolve o portal Rede Peteca – Chega de Trabalho Infantil.

Crédito: Ana Luísa Vieira

O encontro com os 21 alunos, de 9 a 13 anos, para debater e refletir sobre os malefícios do trabalho infantil encerra a etapa Sudeste da iniciativa, que antes passou por Cabo Frio (RJ) e Setubinha (MG).

Crédito: Ana Luísa Vieira

A iniciativa, que recorreu à educomunicação para tratar do trabalho infantil nas regiões litorânea (RJ), rural (MG) e urbana (SP), foi ministrada pelos educadores Paulo Emilio Pucci e Maria Correa e Castro. Em dois dias de atividades, meninos e meninas foram convidados a fazer um roteiro sobre os malefícios do trabalho precoce. As histórias em quadrinhos criadas serão transformadas em animações pelo Canal Futura.

Crédito: Ana Luísa Vieira

A exibição dos desenhos está prevista para o primeiro trimestre de 2018. O Kit PPT ainda é composto por uma cartilha com textos de especialistas em direitos humanos e na área da infância e adolescência, além de sugestões de atividades para abordar o trabalho infantil em sala de aula.

Crédito: Ana Luísa Vieira

Como podemos combater o trabalho precoce?

“Tia, mas o Conselho Tutelar faz tudo isso?” questionou Marcos, de 10 anos, um dos alunos mais falantes da turma, logo depois de assistir à explicação sobre o papel dos atores do Sistema de Garantia de Direitos. “Olha só! Não sabia que o assistente comunitário de saúde também pode ver se na casa tem trabalho infantil ou não” disse Carolina Araujo, de 12  anos.

Crédito: Ana Luísa Vieira

“Hoje eu aprendi o que é onomatopéia, o que é roteiro, a diferença dos balõezinhos no gibi e que o trabalho infantil é ilegal”, comentou Klayvert Silveira, de 13 anos.

Crédito: Ana Luísa Vieira

Desenhistas em ação

Crédito: Ana Luísa Vieira

Divididos em quatro grupos, cada turma escolheu ilustrar uma forma de trabalho infantil.

  1. O trabalho infantil doméstico é tema central do gibi Ana Beatriz – Chega de Trabalho Infantil;
  2. Os papéis do Disque 100  e do Conselho Tutelar estão ilustrados em A Vida Triste de Marcos;
  3. A importância do agente comunitário de saúde e da escola na proteção dos direitos da infância e da adolescência aparece em Fernando e Sua Família
  4. A influência do psicólogo na vida de uma criança em situação de trabalho precoce é retratada no gibi Criança Não Trabalha, Criança Dá Trabalho – título inspirado na música do grupo Palavra Cantada.

Leitura do mundo, leitura da palavra

“É muito importante para a escola receber um projeto como esse. Queremos que a turma participante seja multiplicadora aqui na escola”, afirma a professora Débora Garofalo, parceira da Rede Peteca – Chega de Trabalho Infantil em atividades ligadas aos direitos da infância e da adolescência.

Crédito: Ana Luísa Vieira

A despeito das dificuldades cotidianas, os educadores buscam estender em suas atividades debates sobre os direitos e deveres de seus alunos, baseados no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Crédito: Ana Luísa Vieira

“Estamos localizados em uma região vulnerável. Temos o papel de mostrar a esses meninos e meninas que a realidade de alguns colegas, que deixaram a escola pelo fato de terem de trabalhar, pode mudar com a atuação em rede, com a conversa com os pais e a comunidade. Seguiremos lutando”, assegura Débora.

Crédito: Ana Luísa Vieira

Trabalho infantil no Sudeste

A Região Sudeste responde sozinha por 854 mil crianças e adolescentes em situação de trabalho. Ou seja, um em cada três casos (32,8%) ocorre nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Só em São Paulo, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (IBGE) de 2015, existem atualmente 405.640 mil crianças e adolescentes de 5 a 17 anos em situação de trabalho.

A Grande São Paulo concentra cerca de 50% dos casos de trabalho infantil no Estado. São com 200 mil crianças e adolescentes que enfrentam o trabalho precoce na metrópole.

Os quatro estados assumem protagonismo ainda mais preocupante quando o critério são as cidades com maior incidência de trabalho infantil. Dos 957 municípios com maior prevalência da atividade laboral precoce acompanhados pelo Sistema de Monitoramento do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (SIMPETI), 377 (40%) estão na Região Sudeste.

Por meio da ferramenta do Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário (MDSA), essas prefeituras repassaram dados sobre o trabalho infantil, com base no Censo 2010, e receberam acesso a repasses federais para desenvolver ações específicas para essa população. Cabo Frio, Setubinha e a região metropolitana de São Paulo, territórios contemplados pelo Projeto Pedra, Papel e Tesoura, fazem parte do SIMPETI.