publicado dia 19/04/2017

O índio para além dos estereótipos dos livros de história

por Christine Castilho Fontelles

Descobrimentos: nós que aqui estávamos, ainda estamos!

A cada passo dado pela humanidade, como o de Neil Armstrong na Lua em meados do século passado, descobrimos um pouco sobre nós. E ainda que assim não seja percebido ou conscientizado, chegamos mais perto de uma natureza comum. Como resultado da grande explosão que gerou o universo, homem e Lua, sabe-se, são feitos de poeira das estrelas. Mais precisamente: homens e astros têm 97% do mesmo tipo de átomos.

Mas antes… Bem, bem antes, a humanidade empreendeu outras navegações por terras e águas. Movimentos migratórios ao redor da Terra desde que o homem é homem resultaram em outros big bangs, diferentes da fascinação do astronauta-navegante diante de sua “irmã Lua”, promovendo um estranhamento feroz e, não raro, mortal.

Aproximando a grande angular da história na América, por exemplo, esse “estranhamento” tem uma estranha e nociva vida longa. Como diz o professor Percival Leme Britto, “o mundo que a gente quer pode ser o mundo que a gente decidir fazer: e isso significa gente que pensa, cria e estuda. A educação é a possibilidade da consciência de que a vida se faz na história humana e essa história é também uma história de fazer a natureza além de simples coisa”. Eu complementaria: a educação é a possibilidade da consciência de que a diversidade é o que há de mais natural e humano em nós.

Mas não foi e não tem sido assim compreendido e acolhido.

Tela Descobrimento do Brasil (1956), de Cândido Portinari

Tela “Descobrimento do Brasil” (1956), de Candido Portinari

Seu Pedro Álvares Cabral veio navegando quando alguém logo gritou: “Terra à vista!” e foi descoberto o Brasil, como revela a letra de um jingle antigo de uma antiga e extinta companhia aérea. Deste encontro, Cristóvão Colombo lá pra cima e Cabral cá pra baixo, nada há para celebrar. Há muito para lamentar, há muito para refazer, recontar, rever.

A educação, como diz o professor Leme Britto, que tem um papel fundamental na formação de seres humanos integrais, generosos, engajados na produção de uma trajetória de cuidado, apreciação e coexistência, perpetua a imagem estereotipada do indígena.

O homem vestido de penas e cocar, com flecha e tacape, morando na oca, chefiado pelo seu cacique, plantando e comendo mandioca, vivendo “preguiçosamente” em suas aldeias à beira de rios. Pronto, deformada a imagem, a cada 19 de abril de todo ano, após rápida passagem do “índio” nos livros de história no capítulo pertinente ao “Descobrimento do Brasil”, nada mais, nada além, nada justo!

Como uma maldição típica dos contos de fada, o indígena brasileiro “retorna” ao “seu lugar” no consciente coletivo. A dor dos indígenas não dói no “homem branco”, no “brasileiro gentil”; os sonhos dos indígenas brasileiros não cabem no modelo de vida do homem branco…

Para eles, a “cultura indígena não está à altura dos museus e da sagração social”; o que pensam e sentem os indígenas brasileiros pouco ou nada importa, ainda que pisemos o mesmo solo, olhemos para as mesmas estrelas, naveguemos pelos mesmos rios de memória e nos apropriemos de sua arte e cultura ancestrais para fazer sabonetes e/ou proporcionar aos nossos filhos de homens brancos um “Dia de Índio”, vestido como petecas, levando as mãos à boca para liberar aquele som típico do huhuhuhu que aprendemos a reconhecer como sendo o som que índio faz, assim mesmo, índio, como se os 307 povos remanescentes coubessem num “lugar” tão pequeno.

Por quê? Por que a escola reproduz este estereótipo? Por que seguimos endossando?

Resolveram nos batizar, ou melhor, nos apelidar, por essa palavrinha, que é maldita. Não só maldita no sentido da maldição, mas também no sentido do dizer mal. É uma palavra que manifesta uma determinada postura das pessoas com relação à minha pessoa. Por isso eu digo que é um apelido que nos colocaram. Não sabiam como nos chamar e disseram que nós éramos os tais dos índios, porque erraram o caminho para chegar às Índias – essa conversa que todo mundo já conhece e que acabou determinando que os habitantes dessas terras se chamariam índios. Correto? E além de ser uma história mal contada, a palavra índio(**) não significa absolutamente nada. Se vocês tiverem curiosidade de olhar num dicionário depois, vão descobrir que a primeira entrada do Aurélio, por exemplo, diz o seguinte: ‘É o elemento químico nº 49 da tabela periódica’, Daniel Munduruku

Desde os tempos do poeta maranhense Gonçalves Dias (1823-1864), o lado bom dessa história ruim é que cada vez mais indígenas têm se apropriado da palavra para falar de si por si mesmo.

Por isso é de uma preciosidade ímpar o trabalho desenvolvido pelo querido amigo Daniel Munduruku. Escritor indígena, graduado em filosofia, doutor em Educação e pós-doutor em Literatura, diretor presidente do Instituto UKA – Casa dos Saberes Ancestrais, dirige uma organização sem fins-lucrativos concebida por um grupo de profissionais indígenas e não-indígenas.

O objetivo central é o de prestar serviços nas áreas educacional e literárias. visando ampliar o conhecimento sobre a Lei 11.645, promulgada em 2008, que instituiu a obrigatoriedade da temática indígena e afro-brasileira no currículo escolar brasileiro.

Além da titularidade, Daniel é grande ativista da palavra, mais precisamente da apropriação da palavra pelos povos indígenas, para que eles mesmos contem suas histórias, e da palavra-semente, da qual faz uso para dispersar Brasil adentro e afora as histórias sobre a ancestral cultura indígena. “Procuro desenvolver uma linguagem apropriada para atingir não apenas a cabeça das pessoas, mas sobretudo o coração. Quando a gente atinge o coração, a flecha que chega é uma flecha que transforma”, diz ele.

E para ser coerente com a convicção de que não devemos tomar a voz e sim indicar em qual fonte está a palavra que melhor pode falar sobre o que tem sido ser indígena neste país, acessem essa ótima prosa com Daniel Munduruku e Cristino Wapichana, músico, compositor, cineasta, escritor e coordenador do NEARIN – núcleo de Escritores e Artistas Indígenas/INBRAPI, criado a partir da necessidade de discutir temas relevantes sobre literatura indígena e direitos autorais, bem como promover a qualificação de indígenas para o exercício profissional da produção literária.

Shipat oboré*

*Como aprendi com Daniel Munduruku, que completa 20 anos de literatura indígena este ano, não existe a palavra adeus na língua munduruku, mas sim o desejo de que tudo esteja e fique bem.

**Metal branco de símbolo In, número atômico 49, massa atômica 114,818, que funde a 155ºC e que se extrai das blendas de Freiberg (Saxônia).

 

Livros ruins não formam bons leitores