publicado dia 16/04/2018

Direitos para quem, se quase ninguém os têm?

por Anna Luiza Calixto

Em coluna para a Rede Peteca, a jovem atuante Anna Luiza Calixto traça uma linha histórica dos direitos humanos no Brasil – e o que precisamos fazer para assegurá-los. 


O debate sobre a construção de um cenário de uma sociedade mais justa e igualitária abraça o sonho de um povo tolerante e disposto a integrar à realidade a discussão sobre onde falhamos historicamente.

Mas esta receita está sendo preparada a pitadas descuidadas: enfrentamos uma polaridade doentia que divide uma nação em esquerda ou direita.

A luta por direitos é absurdamente maior.

O veneno está na dose. Controlar a aplicação de políticas públicas que recuperem, mesmo que parcialmente, os danos causados aos grupos vulnerabilizados no Brasil e no mundo, por acreditar no falso discurso da meritocracia em um país que em raras páginas de nossos livros de História ofereceu proporcionalmente as oportunidades de ascensão entre as classes sociais, etnias e gêneros, é um indicador absoluto da nossa tardia dificuldade de enxergar o mundo através do caleidoscópio do oprimido.

A adesão massacrada dos sistemas de assistencialismo no Brasil é um termômetro do quão despreparados estamos para discutir a necessidade de ressarcirmos aqueles que, historicamente, foram majoritariamente privados de conhecer suas próprias culturas.

Cuidar do outro nos torna humanos.

Existem quatro gerações de direitos humanos. E cada grupo tem suas bandeiras ligadas a um ou outro direito.

Primeiro, tivemos direitos como o direito à vida.

Depois, direitos políticos: como votar, que estava ligado ao feminismo.

Em seguida, chegamos na terceira geração, com direitos sociais.

E os direitos de quarta geração, mais contemporâneos, ligados a minorias, questões raciais, sexuais e de deficiência, com a importante celebração da diversidade que estamos vivendo.

No Holocausto, não era uma verdade que todas as pessoas tinham os mesmos direitos por serem pessoas. Os homossexuais, os negros, os judeus eram considerados como não pessoas e, portanto, não tinham direito à vida. Pelo simples fato de serem quem eram, deveriam ser retirados da sociedade.

Características semelhantes a este pensamento genocida são encontradas em comentários nas Redes Sociais quando se anunciam determinados índices de violência e os números da criminalidade crescentes.

O ódio ainda tem cor, gênero e classe social.

Recomendaria cautela com o esteriótipo cordial de cidadão de bem, que veste seu pijama às quatro horas da tarde, assiste o noticiário sangrento e não economiza o léxico para ofender qualquer ferramenta democrática e qualquer ativista que se oponha ao modelo ditador de fazer política.

Declama biblicamente que no seu tempo as coisas seriam diferentes e que a culpa da pobreza é do próprio pobre.

Cataloga três ou quatro exemplos de personalidades que foram capazes de vencer as inúmeras adversidades dispostas em barreiras sociais e, com eles, anula a necessidade de quaisquer programas que beneficiem as minorias. O feminismo, para tal cidadão brilhante, é para quem nunca conheceu um homem de verdade, e não podemos nos esquecer de que o racismo começa com os próprios negros. “Direitos humanos para humanos direitos”, ele repete em um mantra doentio.

O mesmo cidadão não perde a oportunidade de passar em um farol vermelho e ri de todo tipo de piada preconceituosa. De vez em sempre aceita um troco a mais, não vê mal em atravessar um semáforo fechado e votou nulo na última eleição.

Ensinado com valores ímpares, abomina qualquer espécie de corrupção. Acabou de ser admitido em seu novo emprego, mas pediu cordialmente que seu supervisor não o registre ainda porque, sabe, ele ainda tem uma parte do seguro desemprego para receber.

O perigo do ar condicionado é que ele nos afasta da realidade gritante e tende a nos lembrar, repetidamente, da nossa responsabilidade sobre o caos social. Somos parte deste todo e tentar escapar do óbvio não é solucioná-lo.

Direitos humanos para ambos os lados da linha tênue e intragável que segrega o nosso mundo em perspectivas opostas. Como moeda de troca para este ódio, Ubuntu. Eu sou porque nós somos.

“Defender os direitos humanos no Brasil é uma missão de alto risco”, diz especialista