publicado dia 08/08/2017

Da primeira infância à vida adulta: Como semear a esperança a partir da leitura?

por Christine Castilho Fontelles

Na primeira infância, somos acalentados com histórias narradas por vozes queridas dos nossos cuidadores. São os primeiros fios de esperança que recebemos e que devem ser cultivados por toda a vida.

Se essa rua fosse minha eu mandava ladrilhar…

Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhantes, para todos os nossos amores passarem.

Parece que foi há milhares de anos, numa dessas eras climáticas catastróficas para a vida no planeta que a espécie humana desenvolveu a capacidade de “esperançar”. E foi por conta disso que entendeu que valeria superar as adversidades todas porque havia algo mais ali adiante pelo o que valeria muito lutar e sobreviver. Nascia a esperança!

Seria ela o berço também de todos os contos onde habitam monstros e reveses de todas as espécies a superar para fazer brotar e rebrotar a esperança?

Escreveu o poeta Mario Quintana, em “As Utopias”:

Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!

E disse certa vez o Cacique Seatle, da tribo Duwamish, parece que nos idos de 1855:

…Talvez compreendêssemos com que sonha o homem branco se soubéssemos quais esperanças transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais visões do futuro oferecem para que possam ser formados os desejos do dia de amanhã

Este é o trecho de um longo texto conhecido como a Carta do Cacique Seatle. Ele não a escreveu, porque a escrita não fazia parte da cultura dos povos indígenas da América. Mas suas palavras contundentes ecoam através dos tempos e chegaram até nós pela escrita de um “homem branco” que se sentiu tocado e encantado por suas palavras.

Em seu livro “Ponto de fuga, conversas sobre livros”, Ana Maria Machado faz chegar até nós a conclusão do psicólogo Steven Pinker, professor da Universidade de Harvard, especialista em Estudos do Cérebro e Ciências Cognitivas:

“A espécie humana tem o instinto da linguagem, é biologicamente programada para a linguagem narrativa, para ir tirando de si fios de histórias que contém o que aconteceu a quem, por quê, e depois, e como, e onde, e para quê, e enquanto isso… Assim como uma aranha é programada para tirar de si fios da teia com que obterá os alimentos que lhe garantirão a vida e preservarão o futuro de sua espécie”.

A importância da leitura desde a primeira infância. Crédito: Shutterstock

Crédito: Shutterstock

Nossas primeiras leituras

Ana Maria diz, então, que que essas histórias contadas e ouvidas foram nossas primeiras “leituras”.

Alguém já disse: somos, primeiro, leitor de ouvir, quando na primeira infância somos acalentados com histórias narradas por vozes queridas dos nossos cuidadores, da nossa família, biológica ou de coração. São essas vozes nosso fio condutor para os primeiros passos no mundo da linguagem. Então benditos aqueles que narram e ouvem o “era uma vez…” de todos os tempos e assim semeiam esperança.

Para Ana, “a leitura, como a literatura, surgiu antes dos livros”. E eu estou de pleno acordo.

Ela surge porque a vida não cabe num tempo, num canto, num modo, numa imposição, num lugar chamado restrição, num tempo chamado medo. Como semente está lá, latente; pra desabrochar é preciso cultivar.

A importância da literatura

Em um artigo contundente, a jornalista Eliane Brum fala sobre a ausência de substância na palavra e alerta para a importância da arte e da literatura como alimento vital para impulsionar o real, para tornar bem melhor e humano o aqui e agora.

A contradição é que ao mesmo tempo em que estamos tão necessitados desta palavra-arte-semente, seguimos afogando num tsunami de palavras que, como diz Ana, funcionam como uma “subversão do significado, uma inflação verbal constante que termina por desvalorizar o ato da escrita, ao fazer com que se torne quase impossível ouvir aquilo que é válido e genuinamente novo”.

Despreparados, com pressa e sem disposição para a concentração necessária que as leituras formativas e significativas demandam submergimos num oceano de palavras superficiais com sentido e significado idem.

A delicadeza com o ato de ler e levar a ler

Tal qual as demandas por alimentos de alto valor nutricional e conexão com a vida, onde importa o que, quem e como se planta e se cultiva, ou seja, a rede de qualidade e cuidado que envolve a terra e as relações humanas envolvidas na produção do alimento, é preciso cuidado extremo e extrema delicadeza no ato de ler e levar a ler.

Nossa intenção está presente no concreto de nossas escolhas e seremos melhores semeadores de esperança na medida em que semeamos a leitura e a literatura que ladrilham as ruas com palavras brilhantes para todos os amores passarem.

Não sei se mais do que nunca porque nunca deixamos de nos assombrar, para o bem e para o mal, com o que temos sido capazes, como espécie, de realizar de muito ruim sobre a face desta Terra, mas precisamos demais deste alimento nutricional que a literatura pode nos oferecer em forma de coragem e encantamento para ter esperança e ser no aqui e agora “as mudanças que queremos ver no mundo”, como dizia Gandhi.

Devemos isso às nossas crianças e aos nossos jovens. Devemos semear as palavras-semente que a boa literatura dispersa e faz brotar na forma de esperança e gente melhor para este planeta. Os fios da vida para tecer vida íntegra e preservada para todos.

A importância do leitor literário desde a mais tenra idade