publicado dia 12/03/2018

Com o que sonham nossas crianças

por Christine Castilho Fontelles

“Vossos filhos não são vossos filhos. São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma…. suas almas moram na mansão do amanhã, que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho….”,  Khalil Gibran, poeta libanês.

Houve um tempo em que criança não era muito mais do que um adulto que ainda não tinha “chegado lá”. Mas desde que descobrimos a infância, a “alma” da infância, o que segundo pesquisadores começou a ocorrer nos idos do século 13 e ganhou maturidade e materialidade na estrada até o século 17, parece que no “hoje do hoje” passamos apressados demais pela vida para prestar muitas atenções no miudinho dos dias sobre o que pensam, temem, anseiam, gostam, odeiam, amam, repelem, querem, sonham nossas crianças.

No geral vivem praticamente afogadas em agendas escolares, esportivas e que tais, imersos nos gadgets digitais nas horas vagas, com raro ou nenhum contato ao vivo e em cores com gente da própria idade ou para além dela, alheios às delícias das trocas de afetos de avós e tios, longe bem longe, do convívio em ambientes naturais preservados – com exceção àqueles que têm a natureza como vizinhança.

No geral, envoltos numa jornada rumo ao “sucesso”, o que quer que seja ou signifique, e normalmente significa carreira executiva com “aquele” salário e “benefícios” para chamar de seus.

No geral, estamos mais para “Agora não, Bernardo”, do autor inglês David McKee: um valioso exemplar de que literatura infantil e juvenil não está censurada para maiores de idade; ao contrário, deveria ser amplamente lida pelos próprios. Na história, Bernardo tenta insistentemente avisar os pais de que há um monstro na casa que quer devorá-lo, o que acaba literalmente acontecendo devido à indiferença dos pais. A cena final é impagável.

Em um geral dramático vivem invisíveis nas calçadas das grandes cidades, peregrinando rumo ao exílio, despossuídas dos direitos e dos cuidados. No geral são dados estatísticos sobre trabalho infantil, prostituição infantil, os piores indicadores educacionais, nunca leram ou viram nenhum livro, jamais pisaram numa biblioteca e o chão de suas escolas muitas vezes não têm paredes.

Com o que sonham crianças que dormem e despertam ao som de artilharia pesada, com a merenda negada e destino funcionário traçado? Se dizem, quem ouve? A escritora Amrita Das olhou, viu, sentiu e escreveu “A esperança é uma menina que vende frutas”. Ela conta a história de uma menina que entra e permanece silenciosa no mesmo trem em que está e ela suspeita sua vida em seus olhos: pobreza, abandono, machismo estão presentes e falam a todos nós.

Escutar nossas crianças é reencontrar e promover o fio da história. É visitar a criança que fomos, é reencontrar a sensibilidade, a fantasia, a capacidade de acreditar que, sim, tudo pode ser tão melhor. Sim, “só” de estar neste momento abre-se um portal de ida e volta, de onde se volta, como dizia Heráclito sobre um homem ao atravessar um rio, modificado, humanizado. É andar junto!

Pessoas estão à frente e por trás de lugares que acolhem ou deveriam, promovem ou deveriam promover os direitos da infância, proteger a infância, a “alma” da infância e a integridade física e emocional das crianças. Escutamos?

Lembro um dia em que o escritor e amigo querido Luiz Mendes, autor, entre outros, de “Memórias de um sobrevivente”, respondeu o seguinte quando perguntado sobre o que mais saltou aos olhos quando saiu da penitenciária:

descobrir que estamos cuidando muito mal das nossas crianças. Há muito mais crianças perambulando e morando nas ruas do centro da cidade do que quando eu era criança e vivia por lá nas mesmas condições”.

A literatura é uma preciosa promotora de escuta, mas não anda só. Precisa de gente de ambos os lados, ao lado, com, junto. Precisa que adultos que educam e trabalham na defesa de direitos observem no miudinho dos dias e dos momentos: é preciso ver e agir com o coração. Para além da pressa, da falta de tempo, das estatísticas.

No hoje de hoje, a gente sabe que “Cada família é de um jeito, como bem escreveu Aline Abreu. A gente sabe, mas falta bastante para oferecer acolhimento e hospitalidade, sentimentos que brotam de uma vida envolvida em cuidados e educação para a abertura, que nasce do acolhimento oferecido em banquetes em nossas casas e nos lugares que chamamos educativos. Os laços, e não os nós, que precisam ser construídos, nascem em berços assim.

 

Do urro à palavra escrita: a origem da narrativa humana