Para que a criança continue criança: conheça o Programa Curumim

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Publicado dia 10/07/2017

Criança é uma palavra que vem do latim ‘criare’, que significa crescer ou espichar. Em tupi, o termo para criança tem um significado mais afetivo: curumim, ou criança duas vezes, na inocência natural e na ingenuidade de viver no mundo fantasia, simbolizado pelas florestas, rios e montanhas da vida na natureza. A definição está no livro Programa Curumim: Memória, Cotidianos e Representações, organizado por Margareth Brandini Park e Renata Siero.

Essa criança que transita entre territórios e aprende neles, às vezes muito mais do que em espaços covencionais como a escola, é quem o SESC – Serviço Social do Comércio quis receber quando criou o Programa Curumim, em 1987. A princípio, ele surgiu como reforço escolar e também espaço de contraturno, onde crianças podiam correr, brincar e aprender. Era ainda um tempo quando a rua pertencia a elas, e atividades como jogar bola e subir em árvores não aconteciam dentro dos condomínios.

Crédito: Sesc

Mas como um curumim, o programa também tinha que crescer nos 30 anos de existência. Ele espichou, entendendo que o reforço escolar era menos importante do que dar aos pequenos um local com maior pluralidade de vivências do que a escola vinha oferecendo.  “A criança de trinta anos atrás brincava na calçada. Hoje, seu espaço público é o shopping. O Curumim entende que a educação se dá na vida, nas relações, e que a escola é um dos momentos de aprendizagem, mas definitivamente não é o único. Ela acontece na rua, em casa e no SESC”, explica Maria Augusta Maia Araújo, gestora do programa.

Como funciona o Curumim?

Crianças fazem atividade teatral no programa curumim

Crédito: Sesc

Crédito: Sesc

O programa Curumim atua em 29 das unidades espalhadas por bairros de São Paulo e outras cidades do interior e litoral, atendendo crianças de 7 a 12 anos. Cada uma das unidades é responsável por desenvolver um projeto pertinente ao território em que atua, e o público prioritário são os filhos de comerciários e prestadores de serviço com baixa renda que ganhem até três salários mínimos. Há também vagas para famílias com a mesma renda cujos pais trabalhem na indústria ou como autônomos.

“São dois os pilares do Programa Curumim hoje: processo e ludicidade”, conta Maria Augusta. “Não focamos em resultados, e sim no processo vivo e na experiência desenvolvida nele. Se trabalhamos com a linguagem do teatro, por exemplo, o objetivo não é que exista uma peça, e sim que a criança se familiarize com a linguagem do roteiro, da feitura de figurinos, da vivência teatral”. Quanto à ludicidade, Maria Augusta fala sobre olhar a brincadeira como parte fundamental da infância. “A brincadeira é um processo, não um fim, e renegar sua importância é empobrecer o aprendizado”.

Os dias do Programa Curumim começam com uma roda de conversa. Uma equipe multidisciplinar formada por pedagogos, professores de teatro e profissionais de áreas comumente não associadas à educação acolhem os grupos e perguntam o que querem fazer ou aprender. Tem igual peso o tempo de não fazer nada. “Por que temos que estar sempre fazendo alguma coisa? O tempo do ócio é o da fruição, de contato com o outro. A criança tem esse direito subtraído quando deve se encaixar na lógica do mercado, ocupada 24 horas por dia”.

Desafios

crianças faze atividade o programa

Crédito: Sesc

Por ser um espaço de abertura e socialização, onde crianças se sentem à vontade para criar laços com os educadores, é muito comum expressarem o quão frustrante a escola convencional pode ser. “Os pais também acabam nos procurando, falando da dificuldade que têm em convencê-los a ir para escola, que elas querem vir para cá a qualquer custo. É um problema que não é um problema”, brinca Maria Augusta. “Na verdade, serve como termômetro dessa escola convencional que não responde aos anseios da criança e parece descolada de sua realidade. Criamos um vínculo muito grande com ex-curumins, visitando o programa e falando sobre a importância que ele teve em sua vida”.

Maria Augusta reconhece que, por atender famílias de baixa renda, o programa Curumim tem um efeito benéfico na diminuição do trabalho infantil. Ainda que não haja uma pesquisa oficial, ela entende que o contraturno oferece uma alternativa educativa para pais que possivelmente seriam obrigados a levar os filhos para o emprego. “As famílias percebem a importância que brincar, conviver e ter experiências lúdicas têm na vida dessa criança”.

Para não desamparar faixas não cobertas pelo Curumim, o SESC tem ações voltadas para os menores de 7 anos e maiores de 12. Aos mais jovens, o Espaço de Brincar, oferece uma série de atividades, com participação ativa dos pais ou responsáveis. Para que os adolescentes de 13 aos 19 anos também fossem cobertos, foi criado o programa Juventudes, com opções que reconhecem a pluralidade e a complexidade desse período, oferecendo uma programação com cultura e esporte.