Gibi ilustra ECA de forma simples e divertida

por

Publicado dia 12/07/2017

NacionalTAGS:
WhatsappG+TwitterFacebookCurtir

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo/ E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo.” Assim como retratada na letra da música de Toquinho, “Aquarela”, a arte é uma importante forma de expressão. É possível dar vida a muitas formas, sonhos e sentimentos, utilizando apenas cores e uma folha de papel.

Edson Pelicer, ilustrador, coordenador regional de arte-educadores do Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária) e ex-arte-educador da Fundação Casa, se recorda com muito carinho do exato momento em que teve o primeiro contato com esse universo. “Antes de aprender a ler, já ficava olhando os quadrinhos e admirando todas aquelas imagens coloridas”, relembra. Desse encontro surgiria uma vocação de grande a importância social: a de ser desenhista, comunicando as leis de proteção da criança e do adolescente de maneira simples, divertida e acessível.

Em 2001, quando passou a se envolver diretamente com essa temática no Projeto Travessia, Pelicer criou seu primeiro grande personagem, o Descolado. “O personagem Descolado surgiu quando entrei no Travessia. Ele foi para um jornalzinho, apareceu em uma charge sobre redução da maioridade penal.”

tirinha do gibi descolados, que explica o ECA

Crédito: Edson Pelicer

Mas foi em 2007, ao participar de um edital do Fumcad (Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente), que ele recebeu apoio para lançar quatro volumes do Descolado. Dessa vez, o objetivo era focar no Estatuto da Criança e do Adolescente, que comemora 27 anos no dia 13 de julho.

O Estatuto é uma importante ferramenta para reforçar os direitos e deveres dos jovens e das crianças. Criado em 1990, ele apresenta pontos importantes e que têm como princípio garantir a proteção integral e o pleno desenvolvimento da infância e adolescência. “A ideia de lançar o ECA em gibi surgiu para esclarecer as leis existentes nele e também para tornar a leitura interessante. A lei, no geral, é chata de entender, então se você quer levar ela para mais pessoas, você precisa traduzir aquilo para uma linguagem mais dinâmica”, explica Pelicer.

Divido em quatro edições, o primeiro volume aborda o estatuto com base no artigo 4º, seguido dos temas educação, redução da maioridade penal e exploração sexual.

Faça download dos quadrinhos

 

Edson conta que o mais interessante em ilustrar o ECA foi observar como ele passou a chegar até as pessoas. “Tivemos uma boa tiragem na época. Ao todo, foram 200 mil exemplares. A distribuição era gratuita e feita para escolas, conselheiros tutelares e instituições que trabalhavam com o tema. Muitas pessoas me procuram até hoje pedindo por eles.”

Edson Pelicer

Atualmente, a distribuição não é mais realizada, isso porque, de acordo com Pelicer, não existe ninguém para investir no projeto no momento. “Eu queria muito continuar com o Descolado. Pensei até em fazer volumes com novos temas. Mas, infelizmente, não tem investimento.”


O ECA e a Fundação Casa

Edson, que atuou por quase oito anos como arte-educador na Fundação Casa (responsável por adolescentes em conflito com a lei no estado de São Paulo), também teve a oportunidade de levar o gibi até os meninos internados. Para ele, infelizmente, o Estatuto está, de certa forma, desacreditado por esses garotos. “Eles têm uma visão diferente do ECA. Quando eu levava o Descolado, eles se interessavam mais pelas cores, pelos desenhos”, conta.

De acordo com o ilustrador, a descrença no estatuto existe porque tudo o que está escrito lá não é colocado em prática. “Os meninos já passam por uma série de violações de direitos antes mesmo de entrar na fundação. Eles não possuem acesso à educação de qualidade, moradia, a família passa por problemas. Eles ficam desacreditados mesmo. Por isso temos a função de reinseri-los socialmente, fazer com que eles acreditem neles mesmos”, explica.

Mesmo com vários fatores jogando contra o adolescente, Edson lembra que também há histórias de superação. “Sabemos que alguns meninos saem da fundação e vão para as ruas, e, infelizmente, voltam para o mundo do crime. Mas, ainda assim, conheço muitos garotos que se inseriram no mercado de trabalho, estão bem hoje e escreveram uma nova história.”

Trabalho infantil e oportunidades

Ao falar sobre a rotina dentro da fundação, o ilustrador também toca em outro ponto muito importante: o trabalho infantil. “Muitos dos garotos que hoje estão lá dentro, já serviram de mão de obra barata ou já estiveram na condição de pedintes, situação que acaba por tirar a esperança de um futuro melhor.”

Para ele, se fossem oferecidas oportunidades e assistência aos meninos, muitas vidas seriam salvas. E isso inclui oferecer o direito à cultura dentro das escolas e espaços públicos.

“Na minha opinião, a arte tem um grande peso, socialmente falando. Se um menino tem contato com o universo artístico, ele pode vir a se interessar por novas atividades, o que pode levar para outro caminho, entende? É essencial lembrar da arte e da cultura na hora de se pensar em políticas para os jovens. Eles precisam saber que existem oportunidades, que tem muita coisa bacana para fazer na vida.”