Childhood inicia programa contra exploração sexual de crianças e adolescentes em embarcações no Pará

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Publicado dia 03/08/2017

Há dez anos, a Childhood Brasil fez um convite irrecusável aos caminhoneiros de todo o país: serem heróis da infância. A campanha faz parte do Programa Na Mão Certa, que visa transformar os caminhoneiros em agentes de proteção das crianças e adolescentes vítimas de exploração sexual nas estradas.

Visando enfrentar a violação também no modal fluvial de transporte de carga e pessoas, os heróis da vez são os aquaviários (profissionais que operam embarcações) em uma nova etapa do programa, que teve início em 27 de junho de 2017 no estado do Pará.

A ideia é seguir os mesmos compromissos de proteção assumidos nas rodovias brasileiras, em parceria com empresas que atuam em operações fluviais. A primeira delas é a Bunge Brasil.

O desenho do projeto

Tudo começou com o treinamento de 25 colaboradores da companhia. Eles passaram por uma formação de oito horas, tornando-se multiplicadores de direitos de crianças e adolescentes, especialmente contra a exploração sexual.

Os profissionais levarão informação a 150 tripulantes do modal aquaviário, em um processo de educação continuada, por meio de guias, folhetos e apresentação digital que receberam para conversarem com a equipe.

Com perfil diferente dos caminhoneiros, os aquaviários são funcionários fixos da empresa, na faixa dos 40 anos, com ensino médio completo e uma formação específica para exercício da profissão. Em sua grande maioria não vivem na região, passando 20 dias embarcados e 10 dias de folga.

programa contra exploração sexual nas embarcações do pará_crédito shutterstock

Crédito: Shutterstock

Região Norte

A Childhood Brasil considera que a importância estratégica deste novo modal no Programa Na Mão Certa está alinhada com as mudanças que vem ocorrendo para o escoamento de grãos do Brasil para o mundo.

De acordo com a organização, a rota original por estradas até os portos de Santos e Paranaguá vem sofrendo alterações com a criação de terminais intermodais para exportação de produtos agrícolas em novos portos privados na região Norte. A expectativa é que novos terminais de empresas privadas sejam instalados no município paraense de Itaituba e que cerca de 3 mil caminhões cheguem por dia.

Os números do Disque 100, em 2016, revelam ainda que o percentual de denúncias de violência sexual no Pará está muito acima da média nacional. São 31%, contra 21% nas outras regiões do país. As denúncias reforçam a existência do problema no Estado, embora municípios como Barcarena e Itaituba ainda desconheçam o sistema.

Segundo Eva Cristina Dengler, Gerente de Programas e Relações Empresariais da organização, muito se fala a respeito de trabalho infantil nos barcos. Meninas entre 10 e 14 anos entram para vender produtos e ficam sozinhas com vários adultos. A situação leva à exploração sexual, principalmente quando a população do barco é quase totalmente masculina.

O objetivo da sensibilização é desnaturalizar o olhar dos aquaviários para essa questão, mostrando que as crianças e os adolescentes estão sofrendo uma violação de direitos.

Deslocamento de Santarém (PA) em barco recreio até o encontro das águas (Tapajós e Amazônia). Crédito: José Cruz/Agência Brasil

Deslocamento de Santarém (PA) em barco recreio até o encontro das águas (Tapajós e Amazônia). Crédito: José Cruz/Agência Brasil

Resultados

O trabalho tem dado certo. Em uma pesquisa realizada em 2005 pela Childhood, quatro em cada dez caminhoneiros diziam se envolver com a exploração sexual. Além disso, 75% diziam que não cometiam exploração sexual, mas conheciam um amigo que cometia.

“Isso já nos deu um termômetro da gravidade do problema na época. Atualmente, apenas um em cada dez caminhoneiros diz explorar crianças e adolescentes. A redução é muito alta”, contou Eva.

Ao todo, foram mais de 1,6 mil empresas e entidades empresariais que aderiram ao enfrentamento, possibilitando a formação de 3 mil colaboradores e sensibilizando mais de 1 milhão de caminhoneiros.

Para a gerente, a conscientização não ocorreu apenas pelo projeto, mas do trabalho da mídia e da sociedade em geral, pois atualmente o assunto é mais abordado. “Os caminhoneiros estão mais conscientes que não devem se envolver com isso.”

O próximo objetivo é melhorar a questão da denúncia.

A sociedade brasileira não tem a cultura da denúncia. Por mais que tenhamos estimulado os caminhoneiros a denunciarem os pontos de exploração sexual, no mesmo período, saímos de 1% para 7%. Houve melhora, mas é muito pouco.”

Por fim, Eva avaliou que é possível observar o rompimento de um ciclo, mas ainda não é o suficiente. “Insistimos nas denúncias, na intervenção policial, no resgate das meninas e no mapeamento dos pontos mais vulneráveis. Isso nos ajuda a identificar onde devemos prestar mais atenção. Se essas meninas não estão mais nas estradas, para onde estão sendo levadas? Continuamos na luta constante.”